Wednesday, May 28, 2008

SÃO PAULO DA GAROA

Quando cheguei do interior, ainda jovem, vindo de Assis para fazer cursinho e faculdade em São Paulo, ainda não tinha total dimensão do que era viver nesta cidade. Minha infância inteira tinha sonhado com a chance de morar aqui na cidade grande. As férias de julho e de verão, a gente passava aqui na casa de meus avós maternos. Até hoje não me sai da memória a triste imagem da chegada a Assis quando eu acordava da viagem e via as luzes da avenida principal iluminando o trem. Era retorno ao chão, vindo do céu, que era o sonho. Aquela vida de cidade pequena me entristecia, me deixava cabisbaixo, me dava vontade de sair. Me lembro de quantas e quantas vezes eu contava nos dedos os dias para se chegar o dia da viagem de trem. Naquela época, a gente ainda viajava de trem, nos trilhos da velha e saudosa Sorocabana, que nos trazia até a inesquecível Estação Júlio Prestes. Naquelas plataformas o gostoso era sempre chegar, nunca partir. Nas noites de vinda, nem dormir direito eu conseguia, olhava em meu reloginho de pulso de hora em hora. Tinha uma luzinha fraca que ficava bem em cima da cabeça e que, toda vez que eu acendia, minha mãe, zelosa, na cama de baixo, perguntava se eu queria alguma coisa. Era uma cabine do carro leito, como eles o chamavam, na bilheteria, e tinha um beliche. Em baixo dormia minha mãe, em cima , eu e minha irmã mais nova. Às vezes, dormia sozinho, era a glória, a independência. Mas na maioria das vezes tinha que dividir o espaço com minha irmazinha. A viagem era gostosa, tranqüila, o chacoalhar dos trem embalava o sono que volta e meia era interrompido pela ansiedade de chegar. O barulho doas rodas sobre os trilhos, Ah, esse, só quem já viveu é que sabe! Dava uma sensação de segurança e a certeza de que a gente ia chegar. E ainda na periferia, algumas estações antes da Júlio Prestes, lá ia eu no meu maior gesto de independência para a varanda do vagão, ver sozinho a grande cidade chegar. Era um encontro mágico, um contorno de céu que eu não conhecia em Assis, e que toda vez que eu via me dava vontade de abraçar. O vento que soprava no meu rosto me preparava para o encontro que eu tanto tinha esperado. E lá de longe, assim que o trem embicava na estação, lá estavam meus avós acenando com o gosto de felicidade na palma das mãos. Era como se nada existisse, apenas aquele abraço, aquele beijo ,pudessem acontecer. Nos braços de meu avó , o encontro tão esperado. A cidade, o mundo, a vida , eram pequenos demais para mim naquele momento. A segurança era tão grande que a cidade ficava pequena. E eu a dominava por inteiro. No caminho para a casa dos meus avós, eu via a cidade passar na janela do carro de meu avô e sentia um desejo de pegar em minhas mãos aquela cidade que eu tanto amava.

Muita coisa mudou em São Paulo desde aquele tempo, mas minha vontade de domar esta cidade continua a mesma., Agora não é só a chegada pelos trilhos do trem e o caminho para a casa de meus avós que eu conheço. Trabalhando como vendedor, já rodei pelos quatro cantos desta grande incógnita, que eu tanto amo. Quando era criança, São Paulo era só poesia, televisão, estórias de meu avô. Eu não sabia e não conhecia este lado frio, cruel e impessoal da grande cidade. Meu avô me levava ao centro, me mostrava as ruas por que andara na infância, simulava o barulho do bonde e o trocador pedindo os bilhetes. São Paulo para mim era a São Paulo do meu avô, uma cidade pequena e romântica com seus lampiões de gás.

Hoje, depois de mais da metade de minha vida, já passada nesta terra que eu ainda amo, me ressinto ao me pegar várias vezes querendo sair daqui. Ao contrário de quando era criança, hoje conto no calendário do computador, os dias para o feriado que vai me levar até Assis. Me sinto oprimido, massacrado, pressionado por esta São Paulo que não mais reconheço. As luzes da mesma Avenida Rui Barbosa em Assis, são agora motivo de alívio e de segurança, não mais de angústia.

Felizmente, enquanto estiver aqui em São Paulo, morando no bairro da Aclimação, eu tenho um refúgio: o Parque da Aclimação. O lugar onde me encontro com minhas raízes, o lugar onde volto a ser menino e a vida passa a ter novamente sentido. Final de semana que eu fico em São Paulo e não vou ao parque da Aclimação, não é final de semana. Hoje eu preciso deste espaço, deste jardim que virou parque numa cidade onde o verde foi devastado.

No Parque da Aclimação, os velhinhos ainda jogam dominó e se reúnem para falar dos seus tempos de futebol e zona (do meretrício). Ali, as pessoas se encontram e se conhecem, se cumprimentam e se respeitam, não são impessoais e frias. No Parque da Aclimação, o futebol ainda é pelada e é jogado como mesmo amor que o velho Garrincha tinha por ele. Sem interesse, com ginga, com malícia e malandragem. O futebol é futebol, e a torcida senta junto na arquibancada e xinga o juiz do mesmo jeito. Ali não tem briga e, se tiver, faz parte, logo, logo, chega a turma do deixa disso. A mulherada também fala palavrão e se senta ao lado do marido da outra para xingar o próprio marido que está no campo. A grama não é mais grama, é terra, mas é ali que os bairros de São Paulo ainda se enfrentam com suas agremiações amadoras. È ali que o esporte bretão encontra sua identidade mulata. No Parque da Aclimação, tem o recanto do Saci Pererê, um parquinho de crianças onde todo mundo se junta para ver as crianças rolarem na areia e se divertirem inocentemente. No Parque da Aclimação, os japoneses ainda falam japonês, os coreanos ainda falam coreano e os italianos ainda falam italiano. No Parque da Aclimação, os territórios ainda existem e são respeitados, as pessoas ainda têm origem e as famílias ainda se conhecem. Na concha acústica quem se apresenta é do bairro e pode fazer ali sua propaganda gratuita para aqueles que são da comunidade. Aliás, na concha acústica, as crianças brincam e se divertem ensaiando passos artísticos para o futuro. No parque da Aclimação, não tem diferença. O velhinho da cadeira de rodas está na mesma pista da criança que dá bom dia e passa correndo. Quem corre com tênis AIR último modelo passa no mesmo lugar daquele que corre descalço ou de havaianas. Ninguém se preocupa em mostrar algo para o outro, não tem competição de grife ou status de competição. Ali o esporte é esporte e cada um faz o que gosta do jeito que quiser. As pessoas se conhecem e se reúnem, falam mais abertamente sobre suas vidas e acabam se desmascarando. Trocam idéias e até discutem, mas sem brigar. Discordam e ao mesmo mesmo se entendem. São amigas.

No Parque da Aclimação A SÃO PAULO DA GAROA do meu avô volta pra minhas mãos.

SP, 26/07/2004

SAUDADES GUGA

Escrevi este texto em 2004 quando Guga estava em sua melhor fase.
Decidi publicá-lo em homenagem à aposentadoria de um cara do bem e que eu muito admirei.
O BRASIL DE GUGA
Guga venceu Ferrero e confesso que começo a me lembrar do Senna. Comparações são sempre difíceis e perigosas, mas às vezes bem vindas. Acho que hoje ela é bem vinda.


Há pouco mais de dez anos me lembro que vivia uma dúvida, um dilema, uma crise quase que existencial. Deveria eu amar ou odiar este país? Era um típico cara pintada, já não mais estudante universitário, mas com o espírito de um deles, que acreditava em movimentos estudantis (apesar do babaca do Lindenberg Farias nunca ter me enganado) e na famigerada mobilização social. Peguei minha bandeira, pintei minha cara, fui duas vezes às ruas, acompanhei ao vivo a votação de cassação do Collor. No alto de meu pueril idealismo, achava ser aquilo suficiente e acreditei ter ajudado a mudar meu país.



Naquela época, recordo-me vivamente e com muita saudade, a revolta contra todos aqueles políticos que haviam nos traído parecia deixar de existir nas manhãs de Domingo quando “Ayrton Senna DO BRASIL” nos enchia de orgulho ao desfilar nossa bandeira nas pistas ao redor do mundo. Era um banho de emoção, uma catarse daquele Brasil perdedor que tanto nos maltratava. Era como se ele nos representasse, um a um, de todos os cantos deste país, em cada pódio que conseguia. Era como se ele nos dissesse, a cada novo começo de semana: deixa prá lá, um dia a gente vence... E nós, tomados de emoção, começávamos a semana cheios de esperança.



Quase dez anos se passaram desde sua morte e a vitória de Guga fez-me lembrar dele (como se fosse possível esquecê-lo). Em tempos de “apagão” de tanta falta de responsabilidade, não vivo mais o mesmo dilema. Todos odiamos claramente este país que ainda vai precisar de muitas vitórias do Guga para nos ajudar a recuperar a auto-estima. Até para os mais românticos como eu fica difícil gostar de quem nos maltrata aviltantemente a cada minuto. Fica difícil acreditar em quem se diz preparado e depois “ é pego de surpresa”. Mas o tempo, soberano regente da vida, sabe o que faz. No Brasil do Senna, uma vitória a cada quinze dias era suficiente. No Brasil do Guga, uma vitória por semana ainda é pouco...

E no Brasil do Guga, a vitória já não é mais catarse; é vingança.

REFLEXÃO PARA MOMENTOS DIFÍCEIS

“Eu vi um mar bravo e revolto com ondas enormes.

Então percebi que sob a superfície havia calma e quietude. Eu ouvi as palavras:

Procure a paz que flui por toda a profunda compreensão interior e, quando a encontrar, retenha-a, não se importando com o que esteja se passando ao seu redor.”

A LIÇÃO DO BAMBÚ CHINÊS

Depois de plantada a semente deste incrível arbusto, não se vê nada por
aproximadamente 5 anos, exceto o lento desabrochar de um diminuto broto, a
partir do bulbo.


Durante 5 anos, todo o crescimento é subterrâneo, invisível a olho nu,
mas...


Uma maciça e fibrosa estrutura de raiz, que se estende vertical e
horizontalmente pela terra está sendo construída.


Então, no final do 5º ano, o bambu chinês cresce até atingir a altura de 25
metros.


Um escritor de nome Covey escreveu : Muitas coisas na vida pessoal e
profissional são iguais ao bambu chinês.


Você trabalha, investe tempo, esforço, faz tudo o que pode para nutrir seu
crescimento e, às vezes, não vê nada por semanas, meses, ou anos.
Mas, se tiver paciência para continuar trabalhando, persistindo e nutrindo,
o seu 5º ano chegará e, com ele, virão um crescimento e mudanças que você
jamais esperava...


O bambu chinês nos ensina que não devemos facilmente desistir de nossos
projetos, de nossos sonhos...


Em nosso trabalho, especialmente, que é um projeto fabuloso que envolve
mudanças... de comportamento, de pensamento, de cultura e de sensibilização.


Para ações devemos sempre lembrar do bambu chinês, para não desistirmos
facilmente diante das dificuldades que surgirão.


Tenha sempre dois hábitos: persistência e paciência, pois você merece
alcançar todos os seus sonhos!!!


É preciso muita fibra para chegar às alturas e, ao mesmo tempo, muita flexibilidade para se curvar ao chão.

Friday, May 23, 2008

MENINA

Quando criança nao podia ouvir a música "Menina" de Paulinho Nogueira. No meio dos seus lindos acordes começava a chorar e não parava mais. Até hoje me lembro de cantar chorando:

"Te carreguei no colo menina,
Cantei pra te dormir "

Algo inexplicável, que talvez possa ser atribuído à imensa vastidão cósmica que foge à nossa compreensão. Tive uma filha. Que tanto carego no colo e conto estórias para dormir. Uma filha única, especial, diferente de tudo e que tanto me ensina e leva adiante. Uma filha que ME carrega no colo, mesmo tão pequena, sem saber que assim está fazendo. Uma filha que embala meu sono e me põe para dormir. Acalenta meus sonhos e me faz forte, ensina a essência da vida e me faz pensar.

Na natureza, na frieza da vida, crueza das pessoas, na falta de verdade nos olhares. Na vegonha que não se tem mais, na ausência de valores, no fim da linha deste trem.

Filhota minha, você e só você, não me deixa perder a esperança.

Friday, May 16, 2008

BARCO DA VIDA

Entra no rio,

Corre com o barco

E deixa a correnteza te levar.


Desce o rio,

Contorna as pedras

E vence a força da água


Sente o rio,

Água na pele

O desejo que renova a vida


Vive teu rio,

Entra de cabeça

E veja onde suas águas levarão


Lá na margem,

Correndo nas bordas

O desejo de estar no rio


Friday, May 09, 2008

Armadilhas da língua pátria

Recebi hoje este interessante e-mail que resolvi publicar.

Você sabe o que é tautologia?

É o termo usado para definir um dos vícios de linguagem. Consiste na repetição de uma idéia, de maneira viciada, com palavras diferentes, mas com o mesmo sentido. O exemplo clássico é o famoso 'subir para cima' ou o 'descer para baixo'. Mas há outros, como você pode ver na lista a seguir:

- elo de ligação
- acabamento final
- certeza absoluta
- quantia exata
- nos dias 8, 9 e 10, inclusive
- juntamente com -
- em duas metades iguais
- sintomas indicativos
- há anos atrás
- vereador da cidade
- outra alternativa
- detalhes minuciosos
- a razão é porque
- anexo junto à carta
- de sua livre escolha
- superávit positivo
- todos foram unânimes
- conviver junto
- fato real
- encarar de frente
- multidão de pessoas
- amanhecer o dia
- criação nova
- retornar de novo
- empréstimo temporário
- surpresa inesperada
- escolha opcional
- planejar antecipadamente
- abertura inaugural
- continua a permanecer
- a última versão definitiva
- possivelmente poderá ocorrer
- comparecer em pessoa
- gritar bem alto
- demasiadamente excessivo
- a seu critério pessoal
- exceder em muito .

Note que todas essas repetições são dispensáveis. Por exemplo, 'surpresa inesperada'. Existe alguma surpresa esperada? É óbvio que não. Devemos evitar o uso das repetições desnecessárias.

"YES WE CAN"

O slogan criado para a campanha de Barack Obama ("Yes we can") teve um forte aliado durante os últimos meses: a imprensa americana. Nesta semana a capa da Revista TIME estampa a foto do candidato democrata com a manchete "And the winner is..." com um asterisco. E o asterisco é justificado pela frase: desta vez temos certeza.
Pelos cálculos matemáticos apresentados pela imprensa americana ao mundo a vantagem de Obama sobre Hillary Clinton parace irreversível após a vitória do candidato negro nas primárias da Carolina do Norte no último dia 06 de maio. Mesmo ainda faltando algumas convenções primárias, Barack Obama pretende no dia 20 de maio oficializar sua vitória sobre a adversária e conclamar o partido democrata a unir-se em torno de sua candidatura. Mas ainda não admite abertamente sua vitória. Perguntado em entrevista a uma grande rede de televisão sobre a capa da revista TIME, o candidato disse que ainda há muito trabalho pela frente.
O cenário atual apenas confirma a trajetória da disputa entre os dois pré-candidatos Democratas nos últimos meses. Uma ligeira vantagem de Obama sobre Hillary em Estados com maior presença de minorias raciais e a contrapartida do desempenho da ex-primeira dama em Estados mais conservadores como a Pensylvania. Mantendo-se as devidas estratégias de marketing eleitoral buscando o posicionamento de cada um dos candidatos, o discurso de ambos não apresentou grandes diferenças ideológicas ou programáticas , mantendo apenas a tônica de oposição à continuidade do Governo Bush (qualquer que fosse o vencedor). À exceção da questão do Iraque, quando Hillary mostrou uma postura mais agressiva do que Obama (buscando uma parcela do eleitorado mais consevador - inclusive o republicano), não houve discussões programáticas. Além da questao do Iraque estratégia do comitê de Hillary foi tentar criar a imagem de um Barack Obama mais radical (associando-o a seu ex-pastor e conecções com terroristas). As duas estratégias, aparentemente inteligentes, não se mostraram eficazes principalmente por uma razão: a proteção da imprensa americana ao pré-candidato negro.
O que se comprova mais uma vez com a história desta corrida ao posto de candidato do Partido Democrata para concorrer às eleições presidenciais americanas é a força da mídia. Tivesse a imprensa não "blindado" Barack Obama e a história talvez tivesse sido diferente. Tivesse a imprensa "eleito" Hillary Clinton como pré-candidata ideal e, quem sabe, no dia 20 de maio quem estivesse anunciando prematuramente sua vitória seria a ex-primeira dama.
Durante toda a pré-campanha a mídia americana não apenas protegeu Obama como o enalteceu e o posiconou como a melhor opção. Talvez até como a "salvação" para a América. Mais do que pelos méritos e qualidades do pré-candidato, a "vitória" de Barack Obama sobre Hillary Clinton deve ser atribuída a uma nada velada e pouco parcial cobertura da imprensa americana à esta disputa.

Friday, May 02, 2008

REFAZENDA

Chove na fazenda.
Tempo de esperar a água entrar no solo e fazer a planta crescer.
Terra molhada é terra fértil. Que, ao seu tempo, traz a colheita.

Vida de agricultor não é fácil. Tem que plantar para colher, adubar e tratar, esperar e esperar. Torcer para a chuva vir na hora certa, as tempestades passarem longe da lavoura, as pestes e os maus olhados também ficarem para longe.

Cresci em fazenda. Aprendendo a pensar na terra e nos frutos desta terra. Na magia das águas que caem sobre os grãos plantados e na colheita. Pensamento do Salmo 126: Aquele que semeia em lágrimas, colherá sorrindo.

Aniversário de minha mãe. Saudade do tempo que não sei onde está e nem me deixa sentir saudade. Só o agora. A chuva de hoje. O céu cinzento e vontade de parar. Olhar com calma as gotas de água caindo e as poças se formando no gramado. Eu dentro de mim mesmo. Poça dágua dentro de minha chuva. O vento que balança as árvores e a lareira que vai me aquecer à noite. Eu e minha sombra na luz do fogo. Lado ao lado. Plantando e colhendo. Refazendo.

E por falar em fazenda, colheita, e refazer, resolvi colocar a letra de uma lindíssima canção do Gilberto Gil que fala de tudo isso.

REFAZENDA

Abacateiro acataremos teu ato
Nós também somos do mato como o pato e o leão
Aguardaremos brincaremos no regato
Até que nos tragam frutos teu amor, teu coração

Abacateiro teu recolhimento é justamente
O significado da palavra temporão
Enquanto o tempo não trouxer teu abacate
Amanhecerá tomate e anoitecerá mamão

Abacateiro sabes ao que estou me referindo
Porque todo tamarindo tem o seu agosto azedo
Cedo, antes que o janeiro doce manga venha ser também

Abacateiro serás meu parceiro solitário
Nesse itinerário da leveza pelo ar
Abacateiro saiba que na refazenda
Tu me ensina a fazer renda que eu te ensino a namorar

Refazendo tudo
Refazenda
Refazenda toda
Guariroba

Monday, April 07, 2008

Friday, April 04, 2008

Quem não deve não teme

Sempre ouvi este ditado. Que, agora na "democracia" de LULA, a cada dia se prova mais verdadeiro. Alegando suposta possibilidade de perseguição política o Presidente vetou a possibilidade de o TCU fiscalizar as contas dos Sindicatos.
Em mais uma de suas medidas que clamam pela falta de transparência e respeito ao cidadão, este Governo prova não ter mais limites para o desespeito ao dinheiro público. Ora, se a função precípua (definida Constitucionalmente) do Tibunal de Contas da União é ficalizar o destino do dinheiro público, como uma medida destas proíbe o acesso a esta fiscalização? Há quem interprete dizendo que o dinheiro dos sindicatos não é público, é privado, posto que é baseado na contribuição dos sindicalistas. O que pode ser considerada uma interpretação correta.
O que eu gostaria, porém, de discutir não é se a verba dos sindicatos é pública ou privada, mas sim a postura corporativista e enclausurada, defensiva e covarde deste Governo. O próprio Presidente admitiu que, por ser ex-sindicalista perseguido, temia a perseguição a seus colegas. Quem não deve não teme. Quem não tem o que esconder não deve ter medo. Por quê então proteger os Sindicatos escondendo suas contas?
O fato de um ex-sindicalista proteger seu sistema é um grave "mea-culpa" que deve, no mínimo, levantarar a discussão sobre quem, se não o TCU, pode fiscalizar as contas dos Sindicatos. Não se pode aceitar uma decisão destas sem uma grande e ampla discusssão sobre este tema.

Os Pais do PAC

Mais uma genial do José Simão nesta manhã na Band News.

Se os pais do PAC são o Lula e a Dilma, imagine se o filhote puxa a aparência da mãe e a inteligência do pai?

Rapidinha

E num motel em Campo Gande:

PROMOÇÃO ESPECIAL: RAPIDINHA A R$ 10,00.

30 Minutos (sem vídeo).

Ouvi esta manhã na coluna do José Simão na Band News

Thursday, April 03, 2008

O meio e o sempre

Deixo para trás minha estrada sem me arrepender.
Guardo o rastro, as encruzilhadas onde me encontrei e desencontrei, os mapas riscados, as curvas onde derrapei, as placas não respeitadas. Faço minha história a cada passo juntando meus pedaços, minhas várias metades, meus fragmentos de reconstrução a cada esperança que se renova.

Renasço toda vez que minha loucura não permite que eu finalmente me acomode e me dê por satisfeito. Quero sempre rodar, correr e nunca parar em alguma estação chamada ponto final.

Minha vida é um caminho sem fim nem começo, só o meio e o sempre. O sempre do amor.

Friday, March 28, 2008

Chega de Saudade

Segure-se na cadeira para não sair dançando. Chega de Saudade é um convite para se bailar no meio do cinema. Com trilha sonora que mostra toda a riqueza dos gêneros da música brasileira e interpretações primorosas de Elza Soares é difícil não ter vontade de se levantar da cadeira e sair dançando. Desde forró até clássicos como Carinhoso, fundo musical para uma cena que, sozinha, já valeria o preço do ingresso.

Ambientado em um Clube de Dança de São Paulo, Chega de Saudade, segundo filme da diretora paulistana Lais Bodansky, é uma grande viagem à rotineira vida de pessoas normais e simples. Com extrema sensibilidade, a história de vida de vários personagens é contada tendo um único cenário ao fundo, o clube de dança. Ao longo do filme, este único ambiente parece transformar-se em vários lugares que ganham contornos e cores diferentes para ambientar um bonito jogo entre recordações do passado e o que é vivido na própria noite do baile. Um incrível jogo de câmera, com diferentes perspectivas e tomadas, faz o mesmo salão transformar-se em vários salões. Aliada a uma trilha sonora que ambienta cada situação, paralelamente as histórias vão sendo contadas ao mesmo tempo em que a pista de dança une e amarra todas as diversas realidades de seus personagens. O roteiro bem alinhavado mostra a importância desta técnica na criação de um bom filme.

O forte movimento da câmera de Laís, focando os pés de quem dança e várias vezes fazendo um passeio pelo salão, imprime ritmo à narrativa que aborda inteligentemente questões vitais na vida de qualquer ser humano. Por ser ambientado em um clube com várias cenas de dança, pode-se pensar que Chega de Saudade é um filme "descompromissado". Vencedor do Festival de Cinema de Brasília de 2007, o filme da diretora paulistana toca em questões sensíveis e delicadas com as quais nos defrontamos intensamente ao longo da vida. A fragilidade das relações humanas, o jogo da sedução, o ciúme, o adultério, o esmorecimento dos casamentos, a velhice, o tempo que não se pode perder. Em uma linda cena, Tonia Carreiro, em grande interpretação, diz: “há coisas que só se pode fazer na juventude”.

Chega de Saudade é o título perfeito para um filme que nos convida a refletir sobre a saudade que poderemos sentir ou aquela que podemos deixar de sentir dependendo das escolhas de nossas vidas. Um lindo passeio pelo tempo com a leveza dos pés de quem dança e a riqueza de nossa música popular brasileira.

Wednesday, March 26, 2008

Reflexão sobe o escândalo político em Nova York

As recentes declarações do novo Governador do Estado de Nova York, David Paterson, admitindo ter tido relações extraconjugais e experimentado cocaína e maconha na década de 70, impressionam pelo fato de a opinião pública americana tratar com patente diferença o atual Governador e o ex-Governador Eliot Spitzer. O fato de ter admitido publicamente, e ao lado de sua esposa, as relações fora do casamento e o fato de ter, antes que alguém o denunciasse, anunciado ter experimentado drogas, transformaram-no em bom moço apto a exercer uma função pública. Ao contrário de seu antecessor.

Como em um passe de mágica seu passado “questionável” foi apagado pelo público “mea culpa”. Exatamente por ter admitido em público seus “erros” o perdão foi concedido pela opinião pública que o acolheu vendo neste ato uma prova de caráter. Ao passo que o ex-Governador Spitzer continuou a ter o tratamento de delinqüente e marginal, por ter cometido exatamente o mesmo “erro condenável”. Porém sem tê-lo admitido publicamente.

O que os diferencia? Sem entrar no mérito moral, ambos cometeram o adultério e ambos têm a mesma “culpa no cartório” perante a opinião pública. Por quê um teve aval para exercer o poder e o outro não pôde cumprir seu mandato até o fim? Se o adultério é condenável e impede o exercício do poder, então que ambos não tenham permissão para exercê-lo. Se o adultério é critério que habilita ou descredencia um político a exercer sua função pública, então por quê esta diferença? Se o adultério é um padrão moral que influencia na competência para o desempenho de uma função pública no Estado de Nova York, então qual a justiça do julgamento entre um adúltero confesso e outro não?

Se um político adúltero não pode governar, então que esta seja a regra e que seja aplicada indistintamente a qualquer um que tenha praticado o adultério. Parece-me o cúmulo do falso puritanismo aceitar as desculpas públicas de um e condenar o outro que foi denunciado. Onde está a diferença? Se o adultério é pecado, ambos são igualmente pecadores. Quem tem este poder de absolver ou condenar um político adúltero?

A despeito do fato de relações extraconjugais em nada influenciarem o correto exercício de um mandato político, qual a lógica de, imediatamente após um escândalo sexual que leva um Governador à sua renúncia, aceitar um novo governante que também tenha cometido o mesmo “erro”? Somente o falso puritanismo pode explicar tal situação uma vez que, fosse respeitado critério de a habilitação para um cargo público estar condicionada à fidelidade conjugal, certamente o novo Governador do Estado de Nova York (e tantos outros ex-presidentes), estariam sumariamente excluídos do cenário político americano.




Wednesday, March 19, 2008

TRAÇADOS




Em contornos fortes e definidos

Com as cores do meu desejo

Vou pincelando as linhas do meu estilo.


Em contornos fortes e definidos

Na folha de papel em branco

Vou semeando minha felicidade.

Revisitando situações

Revendo meus personagens

Recriando meu ser.



Em contornos fortes e definidos

Vou pintando minha vida.

Refazendo minha paisagem

Fotografando minha alma

Congelando meus receios.



Em contornos fortes e definidos

Vou marcando minha estrada.

Olhando o ponto de partida

Que é sempre o da chegada.

Tuesday, March 18, 2008

Não Estou Lá

Assisti na sexta-feira a pré-estréia de Não Estou Lá, as muitas vidas de Bob Dylan. Definitivamente não é um filme para o grande público, tanto que a crítica na VEJA não é favorável. Quem for ao cinema esperando uma biografia de Bob Dylan vai se decepcionar.

As várias vidas de Bob Dylan são contadas paralelamente sem conexão de tempo ou linearidade. Pura desconstrução de um personagem que reinventou um gênero musical e criou algo nunca antes pensado. Por sua grandeza ao misturar o folk com o rock, buscando a essência de um novo gênero musical e pouco se importando com o rótulo de ícone de uma geração de contestação, Bob Dylan não mereceria uma biografia convencional. Merece sim, uma obra prima do cinema como este filme.

Não Estou Lá é arte. É poesia, é cinema puro. A exploração de todos os recursos de que o cinema dispõe para contar uma história. Desde o primoroso roteiro com cortes bruscos que ajudam a não costurar o recorte de imagens e histórias até o proposital movimento lento da câmera compondo as cenas onde o principal é a música de Dylan. Não Estou Lá, é fotografia, jogo de luz, contraste entre o real e o imaginário. Uma viagem ao mundo real (com depoimentos verdadeiros) entrecortados com o uso dos diversos personagens sem qualquer nexo que os conecte. A única síntese é a própria música de Bob Dylan que, de forma convincente, conta a história de seu próprio autor.

Para os fãs de Dylan, indispensável. Para os fãs de cinema, roteiro para muita discussão. Não Estou Lá é um filme sem meio termo. Dificilmente alguém permanecerá indiferente

Wednesday, March 12, 2008

A Cidade de todos os brasileiros

Há praticamente três anos não ia ao Rio de Janeiro. Na semana passada, reencontrei esta terra mágica que tanta falta me faz. Não à toa, meu chefe, que é carioca, sofre de banzo do Rio de Janeiro. Se fosse carioca, não sei se conseguiria morar aqui em Sampa (por mais múltipla, intensa e cosmopolita que esta cidade seja).

Ao contrário daqui, o Rio é único. Na realidade, o Rio de Janeiro é um estado de espírito. Estar no Rio de Janeiro é entrar na história deste país, entender a vinda da Corte Portuguesa para cá, sentir o sotaque herdado dos Lisboetas. Viver o Rio de Janeiro é mergulhar em nossa origem cartorária e burocrática, passeando pelos imponentes prédios neoclássicos dos Órgãos Governamentais que um dia centralizaram o controle deste país. Estar no Rio é, ainda, respirar um pouco os ares do poder. Seja ele do morro ou dos antigos palácios.

João Gilberto certa vez disse que o Rio de Janeiro é a cidade de todos os brasileiros. Ao contrário de São Paulo, cidade de todos os povos, o Rio é a cidade mais brasileira que pode existir. É o centro da cultura nacional e aceita todas as manifestações em todos os guetos e cantos. O Rio é democrático. A praia aberta abre espaço para o encontro de todos na quadra de fut-volley onde jogadores famosos jogam com desconhecidos. Na areia, globais e artistas internacionais dividem espaço com o mais comum dos mortais. E, na barraca do calçadão, é possível tomar água de côco tendo na mesa ao lado um músico bastante conhecido.

O Rio de Janeiro tem história. As ruas, bares, hotéis e praias têm sempre uma identidade conhecida e, estar nestes locais, é realmente identificar-se com eles. A única triste exceção é a Barra, um misto de Miami e Brasília sem qualquer identidade. Um lugar que cresce desordenadamente e deixa seu DNA carioca bem mais próximo do Guarujá do que da Zona Sul carioca. A Barra não é Rio. A Barra não pertence ao Rio. É um triste acidente geográfico / imobiliário em terrenos cariocas.

Nesta viagem reencontrei amigos queridos que confirmam a minha melhor definição de amizade: quando se tem um verdadeiro amigo, não importa o tempo da separação e a distância que o separou.No momento do reencontro, o tempo volta à estaca zero e tudo parece como se fosse ontem. Como se o tempo não tivesse passado. Assim foi com Mário e Anna, um reencontro natural, verdadeiro e espontâneo. Conversamos, filosofamos e pensamos sobre a vida com a mesma proximidade de outros tempos quando a cada quinze dias passava inesquecíveis finais de semana no Rio de Janeiro.

Um de meus grandes sonhos alimentados desde aquela época ficou mais forte: ter um apartamento lá para passar finais de semana, férias e feriados. Enquanto não consigo, vou sonhando, com a promessa de que jamais, novamente, passarei três anos sem visitar esta cidade que sempre foi, ainda é, e sempre será, a Cidade Maravilhosa.

Friday, February 29, 2008

O embargo à Cuba e a corrida presidencial americana

Acompanhando a campanha dos dois candidatos Democratas, vejo pouca divergência programática e ideológica. Na verdade, ambos posicionam-se de forma segura e não muito arriscada dentro do limitado universo liberal aceito pelo eleitorado norte-americano. Com uma leve tendência de Obama (por sua origem racial) buscar o voto das minorias. Os dois parecem, entretanto, estar lutando dentro do mesmo espaço norteando-se mais pelas pesquisas eleitorias do que por suas propostas. Na luta pelos pontos percentuais, apenas respostas evasivas (sem grande comprometimento) , troca de acusações e absolutamente nada de novo em relação ao circo eleitoral de qualquer país.
Mas e se Obama levantasse a discussão sobre o fim do embargo econômico à cuba? Qual seria a repercussão nesta comportada e comedida campanha? Estando no meio das primárias, acho que Obama teria tempo suficiente para dominar a opiniçao pública e deixar em aberto seu posicionamento, chamando para si todos os holofotes da campanha e definitivamente ofuscando sua adversária democrata. Usando esta estratégia ele poderia fazer um "balão de ensaio" com a opinião pública durante as primárias e medir a real força desta possível arma arrebatadora em uma campanha presidencial. Caso a reação seja negativa provavelmente ele ainda sairia fortalecido deste debate, dizendo que apenas levantou a questão para ouvir seu eleitorado e que seguiria sua vontade.
Minha percepção, entretanto, é que Barack Obama teria um tremendo sucesso utilizando-se desta estratégia, tornando-se praticamente imbatível. Provavelmente parte do eleitorado de Hillary (formado por cubanos e latinos) , simpatizantes desta idéia, migrasse para o lado de Obama fortalecendo-o no campo dos democratas. No lado republicano, esta postura provavelmente pouco impacto causasse, porém, no universo dos indecisos ou politicamente pouco ativos, esta postura poderia ganhar muitos votos, principalmente dentre os indecisos. Barack estraria, definitivamente, chamando para si toda a atenção da campanha, levantando uma discussão que animaria o mais desinteressado dos americanos.

NUMEROLOGIA

Doze são os meses do ano.

Doze são as horas que trabalho diarimente.

Doze são os dias de fevereiro que esperaram para que eu nascesse.

Doze são as horas do mostrador do relógio.

Doze é a música que me toca.


Sete são as notas musicais.

Infinitas, porém,

as combinações.

Mosaico de sentinentos e sensações.


Jogo do destino

travessura das horas,

cartas na mesa.

Doze:

um número marcante.

Tuesday, February 26, 2008

INSÔNIA

Mesmo cansado não durmo.

Dia difícil que não acaba mais e não deixa meu corpo descansar. Respostas tardias não conseguem fechar a garganta que se abriu para engolir sapos.

Deixo a madrugada entrar e tomar conta de minha revanche.

O silêncio.

O tempo.

A verdade.

Thursday, February 14, 2008

Burrices da Ditadura

Ouvi dizer (e não duvido) que nos tempos da Ditadura certa vez um teatro foi invadido durante a encenação de um texto de Sófocles.

A peça estava bem no meio quando estrondosamente um grupo de censores acompanhado por soldados "arrombou" a porta e entrou gritando perguntando quem era e onde estava o tal do Sófocles, autor daquela peça contestadora. O grupo de atores, atônito, ficou sem ação até que um deles, bastante inspirado, respondeu calmamente: "ele viajou".

O grupo de "intelectuais" à serviço dos bons costumes e da moral, começou a ameaçar o grupo de atores querendo saber para onde ele teria ido e onde teria se escondido. Conta-se que a cena arrastou-se por vários minutos com os atores "pregando uma peça" nos sensores deixando-os cada vez mais irritados com a impossibilidade de perseguir o tal Sófocles.

Burrices de uma época mais estúpida do que seus próprios caricatos personagens.

DO POETINHA SOBRE SÃO PAULO

Disse Vinícius de Moraes certa vez:

"São Paulo é bom. Mas a gente anda, anda, anda...

...e não chega em Ipanema"

Ele sabia o que falava.

Wednesday, February 13, 2008

Chegando aos 40!

"Se você deseja um ano de prosperidade, cultive grãos.

Se você deseja 10 anos de prosperidade, cultive árvores.

Se você quer 100 anos de prosperidade, cultive gente"

DITADO CHINÊS

Estou bem mais perto dos 40 do que sou capaz de sentir ou imaginar. Olho para frente com a mesma energia de tempos atrás - tudo bem , eu não aguento mais balada até as três e depois trabalho às 9 do mesmo jeito - mas mesmo assim, sou capaz de me sentir mais novo do que sou. Dizem que não aparento a idade que tenho - apesar de os cabelos brancos começarem a brotar mais rapidamente do que eu gostaria - e isso para mim é muito bom. Ajuda-me a confirmar esta sensação de que ainda não cheguei onde os números da vida querem me levar.

Vivi até hoje quase tudo que eu gostaria de ter vivido. Realizei quase todos os desejos que gostaria de ter realizado, esqueci-me de minha infância perdida. Arrependo-me mais das coisas que deixei de fazer do que daquelas que fiz. Não carrego culpa ou remorso por minhas atitudes. Fui franco e honesto comigo mesmo e com as pessoas que vivem comigo. Sinto que, mesmo não tendo as agradado muitas vezes, fui autêntico e consegui mantê-las perto de mim.


Pago um preço alto por buscar sempre a minha verdade, o preço da imcompreensão e da solidão de visão de mundo. Muito poucas pessoas me compreendem ou me acompanham em meus sonhos e ideais. Não tenho ideologia definida, mas tenho princípios claros. O maior deles, buscar a felicidade sem enganar a mim mesmo.

Sou só, mas a vida há de me trazer respostas. Até agora, tive várias que me sustentaram a alma e me trouxeram mais amadurecimento.
Hoje, ao rever minha vida até este aniversário, pude avaliar o quanto minhas decisões pesaram em meu caminho e quanto eu as pautei pela minha liberdade. Tenho andado pouco livre, dada a carga da responsabilidade da vida de pai, mas confesso que sempre experimentei a minha liberdade testando limites e buscando respostas. Nunca liguei para dinheiro e nunca me preocupei com isso, muito menos em acumulá-lo. Sempre gastei o que ganhei curtindo a vida, viajando, saindo, comendo em bons restaurantes, pagando coisas para amigos e dando presentes para pessoas queridas. Sempre tive mais prazer em gastar com os outros do que comigo mesmo. Por isso hoje não tenho nada acumulado (ainda).

Felizmente o que tenho acumulado são amizades e relações verdadeiras. A cada ano que passa sempre pessoas de um novo grupo de relacionamento acabam me ligando e parabenizando. A cada ano que passa, mais pessoas me ligam ou se manifestam. Pessoas que vou cativando, buscando conhecer, buscando me aproximar. Busco hoje a essência dos relacionamentos (o que me gera problemas profissionais). Odeio a palavra da ordem (NETWORK). Hoje as pessoas se relacionam porque têm interesse no que as outras podem trazer. Nas portas que elas podem abrir. Quando estou com alguém, estou mesmo com esta pessoa, me interesso por sua história, suas vitórias, suas derrotas e seus problemas. Não estou "simplesmente por estar" ou por interesse social. Estou sim , por interesse pessoal, por querer conhecer aquela pessoa e poder olhar em seus olhos conversando sobre a vida. Não sobre a "ilha de Caras".

Tenho construído minha vida buscando estreitar relações com quem é interessante e pode me ajudar a crescer ou pode me ajudar a rir (é ótimo falar asneiras!). Tenho buscado amigos de verdade e pessoas que estejam a fim de compartilhar suas histórias comigo. E, felizmente, meu esforço não tem sido em vão. Conheço bem cada uma das pessoas com as quais tenho mais proximidade, falo as línguas de todas as tribos e adapto-me a qualquer comunidade. Tenho amigos de diferentes idades e classes sociais e cultivo a diferença como forma de expandir os limites de minha compreensão.

Por isso tudo, chego hoje aos 38, feliz com o caminho que escolhi tendo sido fiel aos meus princípios e pagando o preço por minhas decisões. Mas sobretudo feliz por estar, a cada ano que passa, cultivando mais gente ao meu redor.

Saturday, February 09, 2008

PABLO NERUDA

Este é um poema que poderia ter sido escrito por mim, mas nunca serei um Neruda.
Fica aqui minha homenagem à este magnífico poeta que expressa com perfeição o que hoje sinto.

SE CADA DIA CAI

Se cada dia cai
dentro da noite,
há um poço
onde a claridade está presa.

Há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.

Friday, February 08, 2008

DIREITO MACK

Minha vida é uma eterna batalha, uma procura sem fim e sem limites por aquilo que eu busco. Sou persistente e nunca desisto de meus objetivos. Ainda que tudo possa parecer contrário e muitas vezes a preguiça ou a acomodação queiram me vencer, consigo dar um chega pra lá em tudo isso e sigo em frente. Estou sempre atrás da novidade. Detesto sentir-me velho em minha própria história.

Ontem retomei meu curso de Direito. Primeiro dia da minha volta às salas de aula (que eu tanto amo), depois de um semestre sem fazer faculdade e outro no início do ano passado praticamente perdido. Recomeço cheio de esperança, cheio de garra para vencer o cansaço do trabalho e dar conta do terceiro tempo. Vejo a minha vida retomar contornos de novidade com novas caras apesar de a sala de aula e a professora serem as mesmas. A turma mudou. Meus amigos estão no sexto semestre e eu no quarto. Mas não tem problema, ao invés de me desmotivar, consegui achar forças para me lançar o desafio de fazer um novo grupo de amizades nesta classe que não tem pessoas mais velhas como eu. Provavelmenete serei o "tiozinho" da galera. Outro desafio.

Caminhando por entre aqueles prédios que tanta história da minha família carregam, ao ir embora, não pude, literalmente, deixar de me arrepiar com a perspectiva de ser universitário novamente e viver as coisas gostosas que esta vida pode proporcionar. Me reencontar com meus tempos de estágio, as inseguranças juvenis, o truco no Diretório Acadêmico, matar aulas para beber cerveja (Ah, que delícia!), as petições para os professores implorando nota ou presença, o convívio com gente mais jovem e que me deixa ainda mais jovem. Que jorro de renovação e de alegria invadiu as minhas veias.

Ainda que contra o tempo e a "razão", posso agora gritar com todo orgulho e minha energia: DIREITO MACK!!!!

Thursday, February 07, 2008

Primeiro dia de saudade

Dizem que o ano no Brasil começa depois do Carnaval. Hoje começou tudo de novo. Acordar cedo, vitamina no liquidificador, caminho da escola com Saltimbancos no CD player. Bia acordou bem, vestiu-se bem e, toda prosa, disse que ia para a escola rever a professora e as amiguinhas. Cantamos bastante as músicas dos Saltimbancos (ela toda animada cantando o refrão da canção da gataria), passamos pelo posto de gasolina e ela disse: a rua da minha escola!

Quando chegamos ela falava que já era grande e que podia andar para a sala e, ao contrário do ano passado, não quis meu colo. Cumprimentou o porteiro, Tio Zé Maria, falou com a coordenadora e foi para a sala de aula. Só que quando chegou, o brilho de seus olhos deu lugar a um olhar de susto: a sala de aula não era a mesma e a professora também não. Ficou prendendo o choro e demorou para se ambientar. Aos poucos, de mãos dadas comigo, foi entrando na sala e falando sobre os cavalos e potrinhos. Foi se soltando e, ainda meio apreensiva, sentou-se ao lado de uma amiguinha. Mexeu nos bichinhos em cima da mesa e reconheceu um dinossauro igual ao do posto Dinos Park que passamos ontem na estrada. Devagarzinho foi se acostumando. Mas quando dei um beijinho e disse: o papai vai trabalhar, caiu num choro compulsivo e solitário. Virei as costas de coração partido (ainda mais dilacerado do que já estava) e caminhei em direção à rua ouvindo seu choro distante: eu quero ficar com o papai.

Como eu gostaria hoje de poder espontanemente chorar e não precisar esconder a tristeza que tomou conta mim e se juntou ao mesmo vazio que ela sentiu. Saudades de você, filhota, depois de todos estes dias juntos o tempo inteiro, saudades de poder estar com você e falar com você a hora em que eu quiser sem ter que pensar em te deixar crescer independente no seu cantinho de mundo. Gostaria de estar com você (como nos útlimos dias) todas as horas - desde o acordar até você dormir.

Do seu pai que te ama e se sente longe de você (mesmo que por algumas horas)

Friday, February 01, 2008

THE ROADS NOT TAKEN

Esta poesia do poeta americano Robert Frost define muito bem a minha filosofia de vida.

THE ROADS NOT TAKEN

Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveller, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth.

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,
And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads onto way,
I doubeted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sight
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I -
I took the one less travelled by.
And that has made all the difference.

Robert Frost, 1916.

RUA DO SOL

Meu tio Orígenes Lessa escreveu um livro chamado Rua do Sol. É um livro quase autobiográfico onde ele conta os dias de sua infância vivida na Rua do Sol, 104 em São Luís do Maranhão.

Tenho alguns exemplares de livros de meu tio em minha biblioteca. Mas infelizmente ainda não tenho o Rua do Sol. Coloquei até um texto no Blog da família Lessa para ver se alguém tem um exemplar sobrando para me dar. Infelizmente ninguém tem.

Trata-se de um livro muito especial (dizia meu avô), repleto de passagens belas e românticas de uma infância pobre e difícil. Ainda não o li, mas sei que um dia vou ter a chance de ler este lindo romance que ainda não faz parte da minha biblioteca.

Pode ser que mesmo sem tê-lo em meu poder eu consiga vir a ler este livro. Mas se um dia ele vier a fazer parte da minha biblioteca, serei um dos homens mais realizados desta vida.

Thursday, January 31, 2008

Uma árvore chamada Beatriz

Minha filha é uma árvore. Tem raízes plantadas em meu coração. Raízes fortes. Sólidas. Que a cada dia se misturam comigo e tomam conta de mim.

Beatriz significa aquela que traz alegria. Imensa alegria. Por isso escolhemos seu nome. Bia é seu nome desde antes de nascer, mas ela tem vários apelidos carinhosos. Quando estava na barriga da mãe, chutava muito (já era um prenúncio de sua atual agitaçao) e, por ocasião do Mundial de Ginástica de 2005 (quando havia uma ginasta chinesa chamada PANG PAN PAN), demos o apelido de Beatriz PANG PAN PAN. O "pan pan" uma alusão onomatopaica aos seus chutes. Mas ela tem outros tantos apelidos carinhosos: BIBI (minha mãe teve um sonho premonitório onde ela punha uma netinha na cama e falava: olha a Bibi da vovó), BINOCA POROROCA, BIAZINHA, BIBA, PITUCA, TUCA, TUCA PITUCA, TUCA PURURUCA, VIDA (este último o mais importante). Beatriz hoje é a minha vida.

Por onde ela passa, cativa as pessoas. Mais de uma vez recebemos cartões de agências de modelos de crianças convidando-nos a levá-la para um teste de casting. No shopping ela ganha brindes por todo os lados e até laços e fitinhas de cabelo recebeu de presente. Na Alameda Santos o florista nos parou para dar uma rosa à Bia. Na padaria ela para o movimento pedindo ao Agenor seu café com leite. Outro dia falou no restaurante que o bife estava "dulo" (o garçom não acreditou). No supermercado todos os caixas a conhecem e sempre fazem gracinhas quando ela coloca as compras na esteira rolante. Na feira, ela tem desconto de R$0,50 por kilo de tomate porque ela mesma gosta de escolher os tomates. Nas ruas, não raramente, as pessoas passam e fazem elogios. Definitivamente, não há como alguém passar sem que a Bia chame a atenção.

Ela é uma criança que tem carisma e luz próprias. Tem brilho, um brilho próprio que poucas crianças têm. Seu olhar é fundo, penetrante, instigante, e tudo a mim diz. Conheço minha filha por seus olhos. Quando está triste (o que, felizmente, raras vezes acontece) basta olhar, seu brilho quase se apaga. Olha com expressão e tudo diz sem saber que está dizendo. Corre olhando para o mundo e se solta para a vida através de seus olhos que agora seguro em minhas mãos.

Bibi não para de falar. Talvez tenha puxado isso da mãe, não de mim. Constrói frases inteiras com perfeição. Sua voz roca e fraca ao telefone tocam-me fundo e lembram que ela ainda está aprendendo o que é a vida. Mas, ainda assim, já se expressa como uma pessoa que sabe o que quer. Tem a confiança de que pode escolher e não deixa se enganar. De jeito nenhum. Outro dia ela queria comer mais batatas e eu disse que só colocaria as ditas cujas se ela comesse couve ou abobrinha (e que ela escolhesse uma entre as duas). Ela parou para pensar, olhou para a mesa e soltou decidia: TOMATE. Como iria eu negar o tomate? Ela tinha entendido a regra do jogo e soube ganhá-lo dentro "das quatro linhas". Dei tomate. Depois, literalmente, à vencedora, as batatas! Há pouco tempo tentamos ir ao cinema e falei o que ela achava de sairmos à noite de casa. Sem pestanejar ela respondeu: eu acho que vocês devem dormir aqui em casa. Claro que não saímos.

Beatriz é uma árvore frondosa, uma árvore única no meio da floresta da vida. Sua sombra traz paz e conforto. Sua raiz está fincada em terra roxa e fértil. Seus frutos serão muitos e suas flores coloridas. Do alto de sua copa, os sábias escolhem a direção de seus vôos e lá de cima enxergam o mundo. Nos seus galhos, o João de Barro constrói seu ninho com muito trabalho e esforço. Para, tempos depois, ser feliz como nunca.

Minha pituca é especial, muito especial. Tem personalidade e sabe disso. Entende que a respeitamos muito e que suas opções são próprias. Ela sabe o que quer e não abre mão disso. Não está acostumada a ter coisas impostas "goela abaixo". Tudo é explicado, calma e carinhosamente negociado. O tempo das crianças é outro e sabemos respeitar o tempo da Bia para pensar e decidir. Por isso ela faz o que quer acreditando naquilo que faz. Não faz nada obrigada ou sem entender o que está fazendo. Já aprendeu que sempre pode querer, mas nem sempre vai poder ter.

Adora animais. Especialmente cachorros e cavalos. Destes não tem medo, pequenina do jeito que é, aproxima-se deles como se nada estivesse acontecendo. Dá comida na boca e lava suas patas e crina. Conversa com eles e faz carinho no pescoço. Todo seu aprendizado é baseado na natureza. Através do "exemplo" de seus amigos animais, ela aprende a mastigar, escovar os dentes, tomar banho e curar machucados. Tudo por analogia. Assim a aproximamos do "mundo animal" dos homens sem obrigá-la a fazer o que não quer.

Beatriz vê a vida como uma criança. Porém já a entende como um adulto.

Te amo filhota minha.

Seu pai.

Wednesday, January 30, 2008

Combatendo o bom combate

Fui moldado para ser perfeito e seguir o script de uma estória já contada. Mas teimo em acreditar em mim e no meu potencial para ser diferente e fazer as coisas com minhas próprias mãos. Teimo em insistir brigando contra o tempo, sentindo-me cada dia mais novo e disposto - ao contrário de muitos amigos da minha faixa etária que já têm sua vida estável. Teimo em fazer Faculdade ainda que a preguiça seja grande.Teimo em seguir lutando com meus ideais e sem abrir mão deles. Teimo em ser honesto e verdadeiro comigo mesmo, ainda que isso possa doer demais em mim - mais até do que eu gostaria.

Persisto em buscar um palco iluminado para que eu ponha meu banquinho e meu violão e possa me apresentar. Persisto em buscar insistentemente a felicidade e sua luz. Sou incansavelmente persistente na arte de sorrir.

Sou resistente e passo pela vida atravessando muralhas e rompendo barreiras. Raramente deixo-me abater e sempre me lembro dos versos da Canção Dos Tamoios de Gonçalves Dias (que, para variar, meu avô Zuza vivia a Recitar).

Não chores, meu filho:
Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate,
Que aos fracos abate,
Que aos fortes, os bravos
Só pode exaltar.

Tuesday, January 29, 2008

Terra de Camões

Voltei ontem de Portugal, terra de Camões. Não poderia deixar de me lembrar de quando meu avô recitava versos e mais versos de Camões para mim.

Impressionante como a bela arte permanece viva por gerações e gerações resistindo por mais de 400 anos.

Abaixo versos que marcaram e minha infância e que ainda em mim permanecem (ainda posso ouvir e ver meu avô entusiasmadamente recitando estes versos)

Os Lusíadas

Canto Primeiro

1
As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

Meu avô sabia versos e mais versos de todos os Cantos dos Lusíadas, mas não vou transcrevê-los. Fica só o Canto Primeiro do qual me lembro bem.

Outro mais lindo ainda (que meu avô amava recitar dizendo que este era o amor ideal).

SETE ANOS DE PASTOR...

Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assim negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida;

começa de servir outros sete anos,
dizendo: — Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida.

Sunday, January 27, 2008

Igreja da Sé - Lisboa

Quando eu era pequeno, meu avô ZUZA e minha avó Nilze fizeram uma viagem à Europa. Lembro-me de poucas histórias que eles nos contaram sobre aquela viagem, mas uma em especial marcou-me pelo resto da vida.

Disse meu avô que ele e minha avó em cada igreja que entravam rezavam um Pai Nosso. Ainda pequeno não entendi o significado daquele gesto que em minha memória ficou. Mais velho, quando em 1993 passei uma temporada aqui na Europa, tomado pela emoção e pela saudade, alcancei a dimensão daquele ato. Ao visitar as igrejas da Europa, lembrando-me deles, passei a rezar um Pai Nosso em cada Igreja que entrava. Aquilo me fazia muito bem e acabava por me aproximar de meus queridos que a tantos kilômetros de distância estavam. Desde então, a cada nova Igreja que conheço, não importanto a religião, ou local, repito o gesto de meus avós rezando um Pai Nosso. Com um toque pessoal: sempre de joelhos.

Hoje conheci a Igreja da Sé de Lisboa. Uma Igreja linda, de arquitetura gótica, cuja construção data do início do Século XII. Como não poderia ser diferente, ao entrar, ajoelhei-me e rezei um Pai Nosso fervorosamente. Dessa vez de forma mais intensa e mais emocionada, agradecendo pelo meu sucesso nesta viagem e pedindo por meu futuro. Orei também por toda a minha família e por todos os meus queridos, pedindo a Deus que abençoasse suas vidas e seus destinos.

Um gesto, porém, fez esta visita diferente. Acendi uma vela. Sempre achei bonito o fato de os católicos acenderem velas. Sempre respeitei este gesto devoto e reconheci nele um caminho para os fiéis mais fervorosos conseguirem aproximar-se de Deus aliviando seus corações aflitos. Como este gesto não faz parte da liturgia presbiteriana e de nosso hábito, raramente acendo velas. Mas hoje acendi uma vela e fiz uma oração muito especial. Ajoelhado. E de frente para o altar.

Na Igreja que resiste ao tempo, acendi uma chama e pedi ao tempo que a mantivesse acesa enquanto houver esperança em meu coração. Enquanto eu puder viver sonhando e enquanto meus sonhos possam tornar-se realidade. Enquanto eu tiver a coragem para viajar e enfrentar os desafios como desta vez enfrentei.

Despeço-me de Lisboa e espero poder voltar para um dia esta chama novamente encontrar.

Saturday, January 26, 2008

Ao meu amigo "Zé Fernando"

Zé,

Um grande amigo meu ao comentar meu BLOG disse que BLOGs eram uma substituição aos "antigos" diários com a diferença que do outro lado da página estava o mundo via internet. Ele tem toda razão, por isso eu escrevo agora no BLOG para que todos saibam o quanto devo a você.

Nesta viagem que agora faço a Lisboa, por circunstâncias profissionais, tive que assumir mais o papel de assessor de imprensa do que de "marqueteiro". Confesso que gostei mais deste papel do que do aquele que venho fazendo na minha vida profissioanl. Talvez eu devesse mesmo era ter feito faculdade de jornalismo ao invés de propaganda. Lembro-me que na época do 3º colegial isto me passou pela cabeça mas não sei "por que cargas dágua" fui parar no marketing. Acho que é mesmo porque, como diz um grande amigo meu, quem não sabe o que quer da vida vai fazer marketing. E foi o que fiz. Talvez fosse melhor jornalista do que "marqueteiro".

Mas, apesar de não ser assessor de imprensa, adorei fazer este papel e tudo o que sei sobre assessoria de imprensa devo a você. Sem as suas "aulas" dos tempos em que juntos trabalhamos e sem todos os seus comentários e dicas do passado (quando juntos trabalhamos), tenho certeza de que não teria conseguido fazer este meu papel improvisado. Confesso que gostaria de ter te pedido socorro algumas vezes mas a distância e a urgência me impediam de fazê-lo. Assim, tive eu mesmo que "me virar" e, seguindo meu instinto, tomar as decisões. Todas elas sem a sua batuta, maestro! Mas tudo deu certo e agora posso levar comigo mais uma grande experiência para minha vivida vida.

Obrigado, grande irmão, por tudo que você me ensinou. Tenho ainda muito a aprender. E com você quero continuar "estudando".

Grande abraço do seu pupilo.

Aos meus pais

Lisboa já faz parte da minha vida. De um dos capítulos mais importantes de minha história. Aqui vivi uma grande vitória, venci um grande desafio. Sinto-me bem e feliz, muito feliz. A apreensão agora dá lugar à sensação do dever cumprido. Na volta poderei rasgar o continente com a cabeça erguida e com orgulho.

Venci o medo e a minha própria limitação, dominei o desconhecido, usei meu instinto, mantive a calma. Entreguei-me, como sempre em minha vida, apaixonada e intensamente, a um objetivo. E atrás dele corri. Com muito esforço fiz mais uma grande travessia.

Desta forma tenho feito minhas coisas, confiando em mim mesmo e em minha própria capacidade. Nada tenho além de minha inteligência, minha ética e o respeito que conquisto a cada etapa de minha caminhada. Não tenho bens ou dinheiro acumulados, mas tenho a minha própria integridade a oferecer. Minha coragem de seguir batalhando e aprendendo a jogar, como diz a letra da música interpretada pela Eliz Regina:"nem sempre ganhando, nem sempre perdendo, mas...aprendendo a jogar".

Nesta nova etapa e neste novo ano, proponho-me a aprender a jogar o jogo corporativo. Em outros tempos já estive neste tabuleiro, porém imaturo e com sonhos pueris. Agora, um pouco mais maduro e senhor de meus valores, quero jogar este jogo dentro das regras, mas com a malícia de um bom atleta. Quero driblar e não me deixar ser driblado, atacar quando necessário, defender mais do que nunca. Quero ganhar terreno sem tirar espeços de outros e avançar sempre confiante após cada conquista como a de hoje.

O passeio de táxi pelo centro de Lisboa à noite vai ficar para sempre em minha memória como uma das mais lindas noites que já vivi. Sem perder a simplicidade ou a humildade, quero carregar esta noite como marco de uma grande virada. E quero agradecer a quem sempre me ama e me apoia, torce por mim, e tudo me deu, para que eu pudesse contar comigo mesmo e com a capacidade de superar desafios sem medo de perder a batalha: meus pais.

Obrigado mamãe e papai, por terem sido (e ainda serem) grandes pais e terem proporcionado tanta solidez em minha educação. Sem que vocês tivessem a vida INTEIRA dado tanta importância à minha formação como ser humano, jamais eu teria chegado até aqui.

Esta vitória e este gol, dedico à vocês.

Friday, January 25, 2008

O Tejo e a imensidão

Em 1993 quando aqui em Lisboa estive vi o Rio Tejo pela primeira vez. Hoje tive a oportunidade de revê-lo. Mesmo quase quinze anos depois e com Lisboa muito diferente daquela que vi, a sensação que tomou conta de mim foi a mesma: a de visualisar e sentir a imensidão.

Naquela época estava passando uma temporada aqui na Europa e visitei Lisboa como último destino de uma rodada de 45 dias de viagem. Estava com saudades de casa, do Brasil e de falar português. Quando defrontei-me com o TEJO, senti uma enorme emoção (a mesma de hoje). Senti no encontro do rio com o oceano o ponto mais próximo de casa, ao mesmo tempo o mais distante. Senti a imensidão do oceano a me separar e aproximar de casa, pensando na coragem daqueles que há mais de quinhentos anos enfrentaram o mar em busca de riquezas. Imaginei a loucura insana de se lançar com mantimentos provisionados no mar sem fim pondo-se a enfrentar as intempéries do oceano. Pensei na tristeza daqueles que ficavam esperando, talvez sem esperança, quem partiu voltar.

A visão do Tejo é linda, uma nota de fado dentro de Lisboa. Toda a emoção contida, profunda, romântica e sofrida do Fado, traduzidas no rio e sua imensidão. Toda a alma portuguesa, sua coragem e grandeza de outros tempos, contida em águas sem fim. Um reino perdido em sua própria água, que guarda as lembranças de outrora.

Parei e sentei para ouvir a água ir e vir batendo no "paredão" à beira do Tejo. Senti-me bucólico. Só. Saudoso. Poético. Do outro lado Alcântara e a vontade de atravessar. O Tejo e o oceano. A vida e o tempo. Atravessar as dificuldades que esta cidade hoje me trouxe e enfrentá-las com a coragem dos portugueses navegantes.

Nas águas do Tejo, a imensidão da minha esperança.

Thursday, January 24, 2008

Minha vida é Viajar

Mais uma vez, malas prontas. Mais uma vez aeroporto, avião, hotel e um destino a ser desbravado. Um universo novo a ser conhecido, pessoas que passarão a ter um rosto após muitos contatos por e-mail e telefone. Novamente ao olhar para as asas do avião tentarei conter minha expectativa e minha apreensão. Parto para um dos maiores desafios de minha carreira profissional e sei que terei de me superar. Ainda mais.

Esta semana foi incrivelmente difícil, uma das mais difíceis da minha vida profissional, trabalhei muito mais do que podia e sob tensão e stress, sabendo que toda a responsabilidade estava em minhas mãos. Sabendo que, qualquer erro, por menor seja, seria atribuído a mim. Mesmo que a culpa não tenha sido minha. Sob esta pressão, vivi dias malucos com meus dois celulares tocando ao mesmo tempo (o meu ramal com gente esperando para falar comigo) e uma caixa postal que não parava de receber e-mails. Loucura total, insana quase, já que não havia com quem contar além de mim mesmo. Tive que dar conta do recado e agora parto para mais três dias de expectativa e surpresas. Farei um papel que nunca fiz e não poderei mostrar insegurança. Terei que dominar meu medo e tomar decisões baseadas no meu instinto.

Minha vida é viajar, dentro e fora deste país, dentro e fora de mim. Parto para mais uma viagem, mais um desafio, em busca do meu destino profissional que agora tanta importância tem para mim (como nunca teve). Deixo muito de mim e de meu trabalho para trás e levo a esperança de que tudo possa dar certo (aqui e por lá).

Na volta o vôo diurno e a eterna emoção de voltar ao Brasil vendo o avião rasgar o território deixando para trás o mar que me separava de casa.

E a grande sensação de alcançar o infinito quando o azul do mar se junta ao azul do céu.

Tuesday, January 15, 2008

Colecionador de olhares

Sem me dar conta
fui me despindo
do que não era essencial
e saí a caminhar.

Devagarzinho
Olhando bem no fundo dos olhos
(outros olhos)
passei a descobrir a vida
e redescobrir
a mim mesmo

Fui deixando para trás
um olhar que não era mais meu
e passei a colecionar olhares

Olhei para mim mesmo
entregando-me sinceramente
ao olhar de quem não sabia
estar eu colecionando seu olhar

Refleti na coragem dos olhares fortes
a minha fraqueza
na simplicidade do olhar das crianças
meu único caminhar

Thursday, January 03, 2008

TERRA ROSSA

Quando piso nesta terra
Minha origem se revela.

Volto a ser menino
Esquecendo-me dos dias que me levam adiante
Dos anos que se passam todo dia 31.

Brinco livremente
E vejo as horas pelo sol.

Corro pela grama
Ando descalço
E pinto a planta de meus pés com a cor vermelha.

Piso na lama
Ando nas poças de água
E gosto de ver minha roupa se sujar.

Esqueço-me de todas as pressões,
E levo a vida na juventude da minha história.

Cada dia é uma aventura,
Uma nova descoberta,
Um grande renascer.

Planto as sementes de esperança
Semeio as ilusões
Lanço longe os meus sonhos.

Nesta terra da minha história
Vivo a vida que sonhei.

Sunday, December 23, 2007

A HISTÓRIA DO SABIÁ

Para minha filha Beatriz

"Sabiá lá na gaiola fez um buraquinho,
Voou, Voou, Voou
E a menina que gostava tanto do bichinho,
Chorou, chorou, chorou"

Era uma vez uma sabiá de peito amarelo que cantava nas árvores. Era livre e vivia de árvore em árvore a buscar o melhor lugar para ver o mundo. Lá do alto via tudo e todos com seus olhos que mais eram de águia. Via a vida passar e as pessoas correrem e nunca se preocupava com nada. A vida pasava e sua única preocupação era ser livre. Não havia moeda, tempo ou árvore que o prendesse. Ele voava alto e lá de cima via os outros e suas vidas. Não se preocupava com nada a não ser em voar.

Passou anos voando a procurar sua felicidade e a viver em função dela. Passou por cidades, países, geografias distantes que o levaram a pensar em si mesmo e na sua própria ausência de limites para falar e cantar. Para ele a verdade era sua e todos os outros sabiás não sabiam o que faziam e por isso não conseguiriam o topo das árvores.

Até que um dia, depois de ter atingido vários topos de árvores, o sabiá percebeu que não havia mais como entender o mundo sem olhar para seu próprio peito amarelo. Resolveu parar e ficar muito atento. Resolveu fazer um outro tipo de vôo e conhecer seu próprio peito amarelo.

Foi voando, voando, voando, cada vez mais para dentro do seu peito amarelo e foi descobrindo coisas novas que não faziam parte daquilo que ele achava conhecer. Foi devagar lutando contra os outros sabiás que o chamavam de volta a voar, mas ele ficava parado voando pra dentro de si. Foi olhando para seu próprio peito amarelo e vendo diferentes tons neste amarelo. Viu também diferentes texturas para seu pelo, sentiu as asas menores do as tinha. Foi ficando triste e perdendo sua auto-estima, vendo aquele pássaro altivo de outros dias transformar-se em um pequeno e simples sabiá. Foi deixando que as pessoas lhe dissessem o que quisessem, o tratassem da forma que quisessem, foi vendo que os outros achavam que podiam fazer com ele o que quisessem. E se deixou prender em uma gaiola.

Nesta gaiola ficou por muitos anos e muitos dias, triste, pensativo, deixando-se muitas vezes até ser humilhado. Nesta gaiola foi ficando, esperando resignadamente que o tempo troxesse as respotas. Pensava no sabiá que um dia fora e em tudo que já tinha feito e não entendia porque estava ali naquela gaiola preso. Não conseguia fazer com que a gaiola ao menos fosse confortável. Ao contrário, a cada dia ela parecia diminuir. Sufocava e oprimia o sabiá que ali ficava sem ar. Era o preço da falta de luta e do conformismo. Só que ele não conseguia naquele momento lutar e toda sua preocupação estava em sobreviver sem ar.

Tentando respirar e manter-se vivo naqueles tempos de confinamento e sofrimento, lembrou-se de todos os vôos em que olhava para os outros de cima e se achava melhor e mais poderoso do que eles. Lembrou-se dos dias em que achava que seu peito amarelo era o mais bonito de todos e que, nem sempre, os outros sabiás gostavam disso. Lembrou-se também de que os outros sabiás, que voavam mais baixo que ele, estavam agora voando mais alto. E que ele estava preso.

Mas no fundo ele acreditava que fosse conseguir sair daquela gaiola e, um dia, começou a fazer um buraquinho. Devagarzinho, ainda sem forças, usando toda a energia que ainda não tinha começou a fazer seu buraquinho. Começou a acreditar que era possível novamente ser livre e feliz e mais uma vez poder voar alto. Mais uma vez sonhar com o topo das árvores. Viu que a gaiola estava dentro dele (uma vez que ninguém podia colocar aquele sabiá na gaiola) e viu que o ar que lhe faltava era o mesmo que sempre havia respirado.

A cada dia por vários anos foi fazendo seu buraquinho. Até que um dia, com novos olhos, ele voou.

Saturday, December 22, 2007

HORAS NON NUMERO NISI SERENAS

“HORAS NON NUMERO NISI SERENAS”

Só marcarei as horas serenas

Meu avô Zuza, cada dia mais presente em minha vida e minha memória, tinha uma placa de madeira gravada com as palavras: HORAS NON NUMERO NISI SERENAS.

Esta linda placa ficava pendurada na sala da casa da sede da Fazenda Mirasselva e sempre me chamou a atenção. Não me lembro quem me traduziu o significado, mas acho que foi a Tia Marília. Nunca entendi plenamente o significado disto e a profundidade destas palavras. Se eu não me engano, conta meu tio Waldomiro que o vô Zuza gostava de lembrar das horas serenas depois das seis horas e que as horas serenas eram as do por do sol.

Hoje vejo o que meu avô falava ao pensar NAS HORAS SERENAS. Seguirei a buscá-las por todos os dias ainda que seja mais complicado do que pareça.

Wednesday, December 19, 2007

MEU OUTRO ESCORT FOI EMBORA

Meu velho Escort SW 1998 foi embora. E com ele uma fase da minha vida. Acordei mal com isso, na verdade triste. Muito triste. Estranho este apego pelas coisas que marcam o tempo. São símbolos, ícones que materializam nossas lutas, anseios, tristezas e alegrias.

Hoje vendi um Escort comprado em dezembro de 2003 com o qual rodei 80.000 kilômetros em exatos 4 anos. A maioria deles em viagens para o interior. Para a terra sagrada onde renovo minhas energias. Para o lugar onde atualmente mais relaxo e recarrego minhas baterias (mas tenho muita saudade do mar, o mar, sempre o mar!). Comprei este carro pensando em viagens de família e com ele várias vezes viajamos para a Fazenda. Com a Biazinha sentada na cadeirinha como sempre sonhei. Lutei muito para conseguir realizar este sonho e este carro de certa forma simboliza esta conquista. Comprei-o após vender meu outro carro para pagar um tratamento de Fertilização in Vitro. Sonhei com uma criança em seu banco traseiro por dois anos até que ela realmente chegou e tomou seu lugar especialmente reservado.

Tudo isto se passou em minha cabeça quando hoje acordei e tive de entregá-lo para a Rosana. Acordei de mal-humor, bravo e, para ajudar, chovia e o trânsito estava horrível. Levei o Escort para a Rô e na troca, debaixo de chuva, tive um acesso de raiva. Todo molhado e segurando documento, chave, celular, mapas e papéis em apenas duas mãos, joguei tudo no banco de trás com um ódio só e bati a porta.

Naquele momento fechei uma parte da história.

"ROBINHO"

Em 1993 quando voltei de uma viagem de 5 meses e meio da Europa, ganhei de meu pai um ESCORT HOBBY, que eu apelidei de “Robinho”. Com ele viajei muito, mas muito mesmo, principalmente para o Rio de Janeiro. Naqueles anos um grande irmão meu morava no Rio de Janeiro e fui várias e várias vezes passar finais de semana no Rio. Cheguei a ter uma média de a cada quinze dias ir parar no Rio. Sozinho. Não eram tempos de tanto risco na estrada, tanto perigo na chegada ao Rio. Saia direto do trabalho e “punha o pé na estrada”. Em cinco horas estava eu lá, chegando ao meu bairro do Botafogo, passando propositadamente por aquela linda orla de Copacabana. As luzes amarelas iluminando o mar e o bafo da noite no Rio davam-me as boas vindas. Foram finais e mais finais de semana chegando ao Rio e indo direto para a balada no Leblon ou no Arpoador. No sábado era a praia depois do meio-dia com queijo coalho e almoço às cinco. “Soneca” até as nove e depois novamente balada. Domingo era sempre melhor lá do que aqui, quando ficava sozinho sem saber o que fazer de mim mesmo. Domingo em Sampa tende a ser meio depressivo (ao menos para mim). No Rio, não, a vida acorda diferente e, em Botafogo, com o Cristo Redentor abençoando seu café-da-manhã. Só na cidade de todos os brasileiros, como diz João Gilberto, isso é possível.

Com o Robinho rodei 75.000 kilômetos em 3 anos e muitos deles para o Rio de Janeiro em, uma excelente fase de minha vida. Fui também à Búzios e Paraty. Sempre dentro dele, e quase sempre sozinho. Comele bati meu recorde de “travessia” Rio – São Paulo fazendo este percurso de porta a porta em quatro horas cravadas num domingo à noite.

Loucuras juvenis DE OUTROS TEMPOS.

QUALQUER TÍTULO NÃO CONSEGUE ALCANÇAR NOSSA AMIZADE

Almocei com amigos hoje. Almoço muito agradável e gostoso com bom vinho (2 garrafas para nós três) e muita risada. Trocamos experiências como três velhos amigos de faculdade, porém com mais, digamos, experiência. É bom não me lembrar que no ano que vem vai fazer 20 anos que nos conhecemos no primeiro ano da Faculdade.

Pensamos muito nos caminhos de cada um de lá para cá e no que temos feito de nossas vidas. Caminhos diferentes, mas bastante convergentes. Vimos que estamos amadurecendo e escolhendo melhor com quem passar nossos minutos fora do trabalho. Chegamos à conclusão que temos escolhido ficar com quem vale à pena e com quem tem algo a nos dizer.

No fundo para mim foi isso. Um almoço de troca de grandes confidências, grandes impressões e grandes leis da vida. Na verdade há leis imutáveis entre os homens (e também entre as mulheres). Mas hoje falamos sobre as leis imutáveis dos homens. E descobrimos particularidades interessantes que nos afunilam e nos separaram. E que, por maior que sejam as diferenças entre caminhos e decisões, continuamos próximos. Mais próximos do que antes. Ou com melhor qualidade de opiniões.

Passamos horas gostosas e, novamente, renovamos um pacto, onde sabemos que valemos à pena uns para os outros e que continuamos amigos (depois de quase vinte anos).

Grande abraço a vocês.

Tuesday, December 18, 2007

QUEM SOU EU

A volta ao BLOG começou com este texto. Continuo me perguntando todo dia.

Sou quase bipolar. Na verdade multipolar, sem definição de pólo, lugar ou ponto cardeal. Sou norte, sul, leste e oeste. Estou aqui e lá, nos dois lugares ao mesmo tempo e também em lugar nenhum. Tenho ouvidos para tudo, olhos para todos e sei o que acontece em qualquer canto; do jardim ou do mundo. Não tenho tribo, gueto ou clã. Identifico-me com tudo e todos, não consigo me rotular. Não pertenço a ninguém, sou o universo e a molécula, o trânsito em pessoa. Não sei onde estou, estou em todos os lugares ao mesmo tempo. Não tenho “loco” ou foco. Apenas estou. Quem sou?Alguém pode me responder?

Sou oito ou oitenta e todo o caminho entre um e outro. Sou fraco e forte, santo e perverso, fiel e infiel, carinhoso e seco, manso e bravo, dedicado e preguiçoso, trabalhador e vagabundo, inteligente e burro, interessado e desinteressado, estudioso e negligente, emotivo e racional, poeta e “pé-no-chão”, o feijão e o sonho. Sou eu e não sou eu. Imagem do espelho que não reconheço, reflexo da minha vida que não é minha, de atitudes que não são minhas, de palavras que não são minhas, de pensamentos que não são meus. Mas que nasceram de mim. Quem sou eu?

Feliz e infeliz, satisfeito e insatisfeito, homem e mulher, menino e menina, criança e adulto. Sou tudo e nada ao mesmo tempo. O finito e o infinito. O começo e o fim. Sou triste e alegre. Claro e escuro. Brega e chique. Clássico e contemporâneo. Esquerda e direita. Reto e torto.Chato e legal. Prolixo e sucinto. Crente e descrente.

Da vida e na vida. Sou Maria - Maria que tem a “estranha mania de ter fé na vida”. E nas cores, formas, desenhos, cheiros, mãos, pés, cabelos e bocas. Mais ainda, nas pessoas que
vão e não voltam, se juntam mas não se juntam, falam mas não dizem nada, andam e não chegam a lugar nenhum, giram em torno de si próprias e não se encontram, buscam por si mesmas mas não têm ponto de partida ou de chegada. Apenas vagam. Sem destino ou estação final, valores ou pudores, compromissos ou prazos. São apenas: números. Que “traduzem” quem somos, “dizem” quem somos, e fazem da nossa vida um imenso extrato bancário. Sem graça. Sem poesia, sem contato, sem encontro, somente desencontros do vai-e-vem dos carros, avenidas, filas e mais filas. Espera contínua da cidade sem fim. Do beco sem saída, do eu sem avenida.

Ao mesmo tempo sou terra, sou família, sou raiz. Origem. Orígenes. Sou tradição e continuidade, sonho de seguir na avenida do tempo que ficou para trás e insisto em recuperar. Sou história de vida. Sou filho, neto, bisneto, tataraneto. Sou brasileiro genuíno. Não tenho ascendência direta de ninguém. Sou amarelo do índio, preto do africano e branco do europeu. . Mistura de raças e culturas. Creio na força da lenda e do folclore. Não existo sem referência. Não caminho sem estrada.

Sou teimoso, persistente, batalhador e sonhador. Abri minhas picadas pelos caminhos menos percorridos, mas céus, não existo sem alguém ou alguma coisa para me dizer quem sou. Mas quem sou eu? Quem me diz o que é certo ou errado? Quem pode dizer a mim mesmo o que é isto ou aquilo, quem pode me dizer o que fazer? Caminho procurando esta resposta, experimentando estas respostas, testando os limites, valores e a própria tradição que existe dentro de mim. Experimento a vida desde pequeno pensando no que é bom e no que não é bom, no que posso e não posso, no que devo e não devo, no que é certo e no que não é certo, no que é ético e não é ético.

Caminho sob pressão. Caminho sob tensão. Estendendo valores e buscando respostas próprias. Mas nem sempre as encontro. Tem sempre alguma referência, alguma régua, alguma escala, algum termômetro. Que foram colocados a mim pela família, Igreja, sociedade, escola ou empresa. Sou um HD formatado que tenta se desformatar e busca sua liberdade. Sou um inconformado cansado de apanhar por dizer o que acha e de pagar o preço da integridade. Sou um Don Quixote fora de época ou de lugar, no túnel do tempo que se perdeu. Sou o eu fora de padrões dentro do eu totalmente padronizado. Sou a dialética do desencontro e do encontro. Sou a diferença das somas, das massas e da geléia geral. Sou sozinho, sou eu mesmo à procura de mim mesmo.

Sou o rei coroado sem coroa, o dono de fazenda sem terras, o nobre sem o título de nobreza, o dono da casa grande que mora na senzala, o escritor sem livros, o músico sem instrumento, o rico sem dinheiro.

Quem sou eu?

Aquele que busca o palco para a vida se apresentar.

Fernando Lessa, 37 ANOS.

GENTE

Para quem for gente e conseguir me entender
GENTE

A. Valsiglio / Cheope / M. Maratti


“Perché non c’é um limite per nessuno

Che dentro sè abbia um amore sincero solo un respiro

Non siamo ângeli in volo venuti dal cielo

Ma gente comune che ama davvero

Gente che vuole um mondo piú vero

La gente che insieme lo cambierà”

Tenho andado em meu velho Escort que acabo de vender escutando um Cd do Renato Russo que é uma obra-prima: Equilíbrio Distante. Um verdadeiro convite à uma viagem para dentro da alma. Um convite à mais pura sensibilidade. Um CD inteiro gravado em italiano com músicas belíssimas e arranjos fantásticos.

Os versos acima são da primeira faixa, uma música chamada GENTE. Linda, poética e instigante. Fala de gente que ama sinceramente, verdadeiramente e que deseja um mundo melhor. Nos últimos dias tem sido esta minha trilha ao vir para o trabalho e, quando posso (como agora), no próprio trabalho. Tenho pensado em valores, amores e em mim. Tenho pensado em gente verdadeira e que se entrega verdadeiramente, seja ao trabalho, à vida, à família, aos amigos. Enfim, gente que tem a capacidade de amar. Gente que sabe amar. Quantas são estas pessoas ao seu redor hoje? Qual o percentual de pessoas que estão ao seu redor hoje e que sabem amar a vida?

Poucas, talvez muito poucas.

No meu caso nestes dias tenho pensado em minha vida profissional e meu final de ano. Andei rodeado, cercado por estas pessoas, o ano todo, mas não por culpa delas. Vejo agora que talvez minha exigência quanto ao que elas poderiam me dar foi grande. Ou não deveriam me dar? Não sei, mas não tem problema, não preciso chegar à nenhuma conclusão. Não preciso ter nenhuma verdade absoluta.

Porém, o que valeu para mim neste ano é que EU me superei em minha exigência comigo mesmo e minhas repostas para mim mesmo. Vivi dias de total tentação para cair no lugar comum e me deixar levar pela maré. Vivi dias em que todos poderiam esperar de mim o normal, o "de jà vui", o vazio. Mas fui forte e vivi de acordo com meus princípios e minhas convicções. Gerenciando pessoas com amor e por amor a elas, falando duro quando tinha de falar, nem sempre conseguindo, mas sempre buscando respeitar suas limitações. Olhando cada um em seus olhos e procurando traduzir suas perguntas antes mesmo que me perguntassem. Antecipando sentimentos e angústias, preocupando-me com suas vidas pessoais. Nem sempre fui compreendido (aliás, eles até se revoltaram contra mim), mas, na verdade, não importa, o que importa é que fiz o que eu achava que deveria ter sido feito e não remei na mesma direção dos outros. Fui fiel à meus princípios e sei que, pelo menos, não serei condenado por ter agido de má fé com alguém. Bem ou mal, saí do lugar comum e busquei fazer a diferença. Como aquela gente que deseja um mundo mais verdadeiro. Posso ter errado (e, com certeza errei), mas fui verdadeiro e íntegro.

Entreguei-me de corpo e alma ao desafio de gerenciar pessoas inteligentes. Procurei não limitar ou direcionar pensamentos, tolher iniciativas, restringir comportamentos. Procurei deixa-los livres. Mas não consegui integralmente, a tentação da autoridade muitas vezes falou mais alto e fui autoritário. À contragosto, mas na hora não pude controlar minha tentação de ser autoritário. Mas pelo menos tive um norte, um trilho, um caminho a perseguir. Tive uma boa intenção. E, mesmo sendo autoritário, estava sendo eu, pois combato com todas as forças o resquício de autoritarismo que insiste em permanecer dentro de mim. Mas sei que fui gente.

Gente, gente, onde encontrar gente?

Onde encontrar gente que queira um mundo mais verdadeiro?

Estrada para o interior

Para minha filha, essência da minha Vida

Acabei de sair de sair de uma reunião. Boa. Mas sempre com o xadrez das negociações comerciais. Muito bem jogado por sinal. Todos fingem que não sabem o que o outro quer e fingem estar acreditando no que o outro diz. Final de ano. Uma cortesia aqui, outra ali, panos quentes e, tudo bem, em janeiro nova rodada. Aprendi muito, como sempre tenho procurado, olhando para os olhos dos jogadores desta vida comercial. Preciso aprender a ser frio e calculista nestas situações. Preciso desaprender a dizer sempre a verdade. Será que conseguirei? Neste mundo a regra é esta e tenho de me convencer de que não estou fazendo nada errado. Business is business.

Neste contexto corporativo, ao final da reunião, o assunto foi o destino de cada um no Reveillon. Angra dos Reis, África do Sul, New York. Claro que era hora de mostrar que a colheita do ano fora boa e exibir os louros da vitória. Quando perguntado sobre meu destino, disse simplesmente: pro interior, para uma fazenda. Senti o nítido ar de decepção do meu interlocutor, um jovem empresário de apenas 24 anos querendo mostrar seu poder. Pela sua cara deve ter pensado: pobrezinho deste aí, vai para o INterior, não vai para o EXterior.

Pois é, meu caro, vou mesmo para o INTERIOR, para o MEU interior. Vou para a terra de onde sou origem, vou para a terra onde semeio e renovo minhas esperanças. Vou para a terra onde aprendi a ver a vida como um agricultor: aqui se planta , aqui se colhe. Vou para a terra que para mim é sagrada e de onde saíram e saem todos os valores que pautam minha existência. Vou para a terra onde a simplicidade me faz feliz.

Já voei muito, já viajei muito, já me distanciei demais. Agora busco a proximidade, a veracidade e a natureza. Busco o silêncio, a paz interior e o sossego do verde. Busco o fim de tarde bucólico e a melodia do silêncio. Busco as estrelas e seus mistérios, o s animais e seus barulhos e a música que está em mim. Bem no meio do meu INterior.

Para lá minha filha vai desde seus dois meses de vida e lá aprende o que são as coisas da terra, as coisas que só a terra pode ensinar. Lá minha filhota já viveu muito mais do que muita gente e está aprendendo a ver o mundo na horizontal e não não na vertical. Lá minha filhota aprende o que deve ser passado de geração em geração. Lá minha filhota de apenas 2 anos e sete meses percorre uma trilha que a história traçou.

Naquela terra, minha filhota se une a mim na estrada da vida.

Monday, December 17, 2007

PALAVRAS

Estou Vivo.

Há meses estava querendo reviver este meu prazer. Há dias lutava contra o fantasma de não conseguir me espelhar nas palavras. Mas encontrei um espelho, uma força motriz, um furacão que me moveu e me colocou frente a frente comigo mesmo. Foi difícil, mas hoje retomo o caminho de dois anos quando iniciei este BLOG e disse que aqui minha loucura seria depurada e teria seu espaço. Bem-vinda loucura minha, bem-vinda força insana que me emociona e me coloca em movimento.

Palavras, companheiras, vocês serão sempre a minha razão de existir e meu caminho de construção.

RE-construção.

Palavras, fortes companheiras de minha vida. Vocês jamais sairão de mim. Mesmo que eu não consiga manter um BLOG ou mesmo que eu me perca dentro de mim. Vocês são parte de mim.

Confidentes, intrigantes e integrantes de minha história e de minha existência.

Palavras, que eu possa usá-las para o bem e em nome do bem, para bem dizer os meus amores.

Palvaras, que eu possa usá-las para manter a memória de minha família e de mim mesmo, contar e escrever histórias para minha filha e para fazer uma bela oração.

Palavras, só vocês podem mudar minha vida.

BOLINHAS DE SABÃO

BOLINHAS DE SABÃO
Para meu avô Zuza, com muitas saudades

Toda vez que uma bolinha de sabão sobe ao ar
Vejo-te em minha frente.
Sinto-te próximo
E me recordo
Dos momentos gostosos que juntos vivemos.

Da infância que eu não tive,
Mas que você me deu.
Da alegria que eu não tive,
Mas que você me deu.

Toda vez que uma bolinha de sabão explode,
Sua imagem guardada em minha memória
Su funde com vazio deixado pela bolinha que se foi.

Toda vez que uma bolinha de sabão voa,
Liberto meus pensamentos e com ela vago sem destino.

Viro criança de novo,
Moleque travesso que nunca fui,
Experimento a liberdade que nunca tive.

Toda vez que uma bolinha de sabão se forma,
Meu sorriso de criança aparece,
Minha esperança cresce,
E a vida te reencontra.

Toda vez que uma bolinha de sabão faz minha filha feliz
Encontro o melhor de mim
Resgato a pureza da infância
E tudo o que você me ensinou.

Toda vez que uma bolinha de sabão me faz feliz
Sinto que o tempo passou,
Mas não nos distanciou.

Você ficou
E ainda me ensina a ser feliz.

Fernando Lessa
SP, 05/DEZ/07

PARA MINHA FILHA BEATRIZ

ESCOLAS DA VIDA

Deixei você na escola sorrindo e com um beijo. Foi o primeiro dia em que saí com a sensação de ter cumprido minha missão. Após dias e dias, meses e meses (foram mais de dois angustiantes meses), consegui ver em você a serenidade madura que temos que ter para enfrentar a vida. Consegui ver em seus olhos a confiança em você mesma e a independência de quem começava a entender a importância de seguir os próprios passos.

Durante dois meses deixei você chorando e saia eu chorando para o carro com o coração na mão e sem a menor vontade de trabalhar. Durante dias, semanas a fio, pensava mais em você do que no trabalho. Vagava no seu universo, orbitando ao seu redor como uma estrela que nunca te alcançaria. Queria me aproximar, buscava desesperado uma forma de me aproximar, mas sabia que para você o melhor era que eu não me aproximasse. Meu dever como pai era te deixar chorando muito embora meu coração ficasse dilacerado. Muito embora minhas manhãs ficassem resumidas em esperar a hora de você chegar em casa para que eu soubesse que você estava “segura”. Minha obrigação como pai era cortar uma ligação que tinha de ser cortada para que você se acostumasse desde agora a ter forças para suportar separações e frustrações.

Escrevo este texto racional, nada poético, com medo de mim mesmo e do espelho que você coloca neste momento à minha frente, mas posso te dizer, minha filha querida, que, mais uma vez, quem me ensinou foi você, quem me fez crescer foi você, quem tirou o melhor de mim foi você. Nos dias de dificuldade minha, de enfrentamentos e tristezas, pensava em você na escolinha e na sua batalha para ficar por lá e se acostumar com o universo totalmente novo. Ficava pensando em sua energia, em sua batalha, em sua busca, o que se passaria em sua “cabecinha” para você conseguir passar por esta experiência. Na verdade, minhas energias emanavam de você, meu amorzinho, meu pequeno amorzinho, que me fez crescer tanto em apenas dois meses. Nestes dois, quase três meses (agosto, setembro e parte de outubro) vivi uma busca muito grande pelo que seria a essência de minha vida profissional e fui muito pressionado para me superar. Tanto quanto você, minha “pituca”, fui obrigado e combater medos e frustrações, aceitar desafios e crescer na vida. E você esteve comigo mais uma vez me ensinando, me movendo adiante, me mandando para cima e para frente. Nossa separação nas manhãs foram muito importantes para que eu encontrasse forças dentro de mim olhando para você e pensando em você. Amando-te à distância e fazendo uma forte ligação entre nossas experiências.

Obrigado filhota minha, por mais uma vez ter me ajudado a me superar e a fazer de mim uma pessoa melhor.

Te amo.



Seu pai, Fernando Lessa
SP, 25 de outubro de 2007.