Friday, July 25, 2008

ESTOU NOVO EM MINHA HISTÓRIA

No início deste ano criei um pensamento para mim mesmo: estou velho em minha história. Acordava e dormia com esta sensação martelando minha cabeça e muitas vezes dela tentava fugir. Mas não conseguia. Volta e meia estas palavras ecoavam em minha consciência e acabam por me consumir.

Tinha a precoce sensação de que havia vivido tudo o que tinha que viver, sentido tudo o que tinha que sentir, visto tudo o que meus olhos poderiam enxergar. Minha intensidade e minha loucura haviam proporcionado-me todas as experiências que havia escolhido para mim, por nelas acreditar e desejar vivenciar. Desde os três anos de idade sou assim. Conta humoradamente minha tia que certa vez fui ao trem fantasma e dele saí aos prantos. Ao ser perguntado porque eu havia entrado se eu não havia gostado, respondi prontamente: porque eu pensei “se era bom”, “né” tia!

E com esta “simples” filosofia de vida vivenciei e experimentei muitas coisas, vivendo cada dia como se fosse o único de minha vida. Até chegar ao “ponto final”. Sem esperança e, para mim, o pior: sem a capacidade de sonhar! Meus sonhos haviam sido enterrados e minha vontade de viver estava parada. Não havia para onde olhar. Conhecia todas as paisagens, todos os roteiros, todas as viagens. O destino de meu futuro era meu próprio passado.

Foram sete meses difíceis. Vividos, batalhados, monitorados, espelhados em algo que não conhecia. Fui resignificando minha vida e revirando a mesa. Montando um novo jogo no mesmo tabuleiro. Vivendo e reaprendendo a jogar. Voltei a aproximar-me de minhas raízes, em minha essência busquei as respostas. Apostei no medo. E de frente o enfrentei. Entendendo que apenas sofrendo somos capazes de evoluir.

Hoje encerro meu primeiro mês de uma nova etapa profissional. Com todo o caminho aberto, sem saber o que vai acontecer, sem ter certeza das respostas mas, sobretudo, reaprendendo a viver.

Sinto-me novo em minha história.

Tuesday, July 22, 2008

EVERYTHING BUT THE GIRL

"For your bedroom needs, we sell everything but the girl".

Criativo slogan de uma loja na Inglaterra.

Foi a partir desta sugestiva frase inscrita num letreiro de uma loja de mobílias, que Tracey Thorn e Ben Watt se inspiraram para dar nome ao grupo que formaram no início dos anos 80, quando ainda eram ambos estudantes universitários. Hoje o grupo é um dos ícones da moderna música inglesa apostando na fusão de estilos musicais e usando muito influências às sonoridades electrónicas.

Além do som ser muito bom, a origem do nome é fantástica!

Thursday, July 17, 2008

MEU NOME NÂO É JOHNNY

Acabo de ler a incrível aventura de João Guilherme Estrella narrada no livro Meu Nome Não é Johnny. Deliciosamente escrito pelo jornalista Guilherme Fiuza, a biografia de um filho da burguesia carioca que virou traficante foi, para mim, uma grande lição de vida.
João Guilherme Estrella nasceu em berço de ouro, teve uma adolescência livre e foi um jovem que, circunstancialmente, caiu no mundo do tráfico. Percebe-se pela narrativa que ele não planejou montar o império que acabou se instalando ao seu redor. As coisas foram acontecendo, dando certo, e ele acabou chegando a um ponto em que não conseguiria sozinho sair da enroscada em que havia se metido. Ao meu ver, para seu bem, foi capturado pela Polícia Federal e passou apenas dois anos e meio na prisão, após uma controvertida decisão judicial que fez história no Rio de Janeiro.
De todos os trechos do livro, os que mais me marcaram foram aqueles em que o escritor descreve a vida de João Guilherme na prisão. Estrella não era santo, sabia se defender e tinha a "escola da rua", mas nunca foi um personagem do mal naquele meio tão complicado. Ao contrário, mesmo estando em meio a pessoas perigosas e que poderiam muito bem tê-lo influenciado negativamente, conseguiu manter-se fiel a seus princípios e sobreviver naquele ambiente singular. João foi capaz de manter-se são mental e fisicamente e aprendeu a lidar com as carcteristicas daquele sistema onde as regras são outras. Mesmo obedecendo à lei da prisão, Estrella foi capaz de se tornar uma unanimidade entre os presos ao mesmo tempo em que ganhou a confiança do sistema carcerário. Sua grande inteligência emocional o proporcionou a capacidade de sair-se bem, mesmo tendo, aparentemente, tudo contra si.
Naqueles anos sabáticos dentro da prisão, João foi exatamente o mesmo homem que havia traficado, ou seja, aquele que acreditava naquilo que estava fazendo. Mesmo que não soubesse o porquê. O que mudou, porém, foi seu autoconhecimento e a descoberta dos porquês. Sendo fiel a si mesmo, foi capaz de enfrentar adversidades que poderiam tê-lo destruído. Estrella tocava violão e compunha desesperadamente, escutava e cantava músicas em voz alta, fazia exercícios, escrevia para os analfabetos, contava histórias de um mundo que os presos não conheciam. Usou o castigo a seu favor privando-se das drogas em um ambiente mais do que favorável para seu consumo e com ampla oferta. Fez uma enorme desintoxicação física e mental e, pela primeira vez na vida, parou para pensar em si próprio. Descobriu que, até aquele momento, tinha apenas vivido intensamente.

Após o período de prisão, Joâo teve a real oportunidade de voltar ao mundo do tráfico mas rechaçou, firme e disciplinadamente, este caminho. Convicto, recomeçou sua vida do zero e, humildemente, trilhou uma nova vida. Sem nunca imaginar que viraria, literalmente, estrela!

PLATAFORMA DA ESTAÇÃO

Vi meu avô na plataforma. De pé nos esperava com seu sorriso alegre e sua barriga “cheia de dinheiro”. Veio em nossa direção caminhando ao lado de minha avó para nos receber. O trem, quase parando, chacoalhava devagarzinho chegando ao final da linha. Debruçado na janela da entrada do vagão, mal esperava pela hora de descer. Bem ao lado camareiro, ansiosamente, via ele baixar a escada. Desci os seus degraus e saí em disparada.


Os braços de meu avô receberam-me calorosamente. De mãos dadas, caminhamos em direção à locomotiva e, num gesto que se repetia a cada chegada em São Paulo, ele me levantou em seu colo para eu ver a magia da máquina de comando. Aquela que, contava ele, não mais cuspia fogo como as outras á vapor que levavam seu pai nas viagens pelo interior de São Paulo. Fascinado, olhava para dentro da locomotiva procurando o maquinista que me trouxera a São Paulo.


Pessoas ganhavam a plataforma, umas apressadas, outras cansadas da noite mal dormida, o vagão de carga deixava o que havia transportado e os ajudantes se apresentavam oferecendo-se para carregar as malas. A plataforma, antes vazia, ganhava vida com a chegada de mais um trem de longo percurso. Os carrinhos de madeira passavam cheios de bagagem, o vagão restaurante descarregava as garrafas de refrigerantes e o garçom descia tirando sua gravata de borboleta preta. Abraços e beijos, festa para quem chegava de longe. O grande relógio a marcar as horas.

Revisitei esta plataforma. E vi nos ponteiros daquele mesmo relógio o tempo da saudade de meu avô.

Monday, July 14, 2008

O CAÇADOR DE PIPAS

Sábado fui ao Parque das Bicicletas com minha filha. Passamos boas horas e nos divertimos nesse bem cuidado parque de São Paulo. Porém uma coisa chamou-me a atenção: é probido soltar pipas naquele parque.
Estava sentado próximo à entrada principal tomando um delicioso picolé quando vi uma cena que nada me agradou: um pai com dois filhos estava entrando com suas três bicicletas e uma pipa (dessas de plástico) quando foi abordado por um guardinha da Guarda Civil Metropolitana. Sem nada entender o sujeito continuou andando até que foi abruptamente interceptado. Os dois discutiram e, pouco depois, o pai seguiu injuriado. Não consegui ouvir o diálogo mas vi que a pipa ficou retida na guarita. Inconformado, fui conversar com a tal "autoridade". Perguntei se o que eu tinha entendido era realmente verdade e, estupefato, escutei que é PROIBIDO soltar pipas e que, quem com elas entra, tem de deixá-las na guarita, podendo apenas retirá-las na saída. Olhei para o alto e não vi redes de alta tensão, tão pouco postes que pudessem oferecer riscos. Questionei a "sumidade" encumbida de manter a ordem local sobre qual era o motivo de tal proibição já que, literalmente, não via, a olhos nus, motivos para aquila proibição. A alegação foi a coisa mais ridícula do mundo: ele me disse que as linhas das pipas podem cortar as pessoas e oferecem riscos se forem cortantes. Façam-me o favor: quantas pessoas entram no parque das bicicletas para soltar pipas com linhas "preparadas"? A maioria vai apenas divertir-se utilizando linhas comuns ou até mesmo barbantes. As linhas de nylon são pouco utilizadas e, mesmo que alguém faça uso delas, quem vai passar por uma linha de pipa sem ver?
Aquele parque é aberto, espaçoso, amplo e dá perfeitamente para se soltar pipas sem oferecer qualquer risco. Abaixo esta burrice. Já temos poucas áreas gratuitas de lazer e, quando as temos, ainda querem inibir o nosso prazer? Se lá no Parque aquele pai não pode soltar pipas, onde então ele vai fazê-lo? Só se for na rua da sua casa, aí sim, com a rede elétrica todinha "à sua disposição" e colocando em risco a sua vida.

PARQUE DE DIVERSÕES

Para minha filha

O carrossel virava,
virava,
virava.
Seus cabelos compridos voavam.
Nas voltas do seu cavalo
o encanto da infância que pouco vivi.
Girando com você
em seu sorriso
minha tristeza escondi.
E, sem querer nenhuma resposta,
rodando com a vida aberta
fui adulto brincando de menino

Thursday, July 10, 2008

PERSERVAR É SONHAR

Perguntado hoje por um veterano jornalista sobre o que eu andava escrevendo, respondi: apenas bobagens pessoais em um BLOG.
Ele me incentivou respondendo: continue a escrever e não se equeça do mestre Gustave Flaubert, autor da seguinte frase:
"Não há página mal escrita que resista a leitura em voz alta".
Continuarei escrevendo. E agora lendo em voz alta.

Tuesday, July 08, 2008

POETA ANALFABETO

A veterana jornalista Vera Lúcia Gertel relata que, certa vez, ao viajar pelo Vale do São Francisco, encontrou uma casa com poesias na parede. Casa humilde, de gente simples, nativa da beira do Velho Chico.
Intrigada pelo fato de ver tantas poesias resistindo ao tempo nas paredes de tijolo desbotado, a jornalista procurou encontrar quem escrevera aqueles poemas. Foi indicada a falar com um jovem, neto de um senhor que não sabia escrever. O moço lhe explicou que seu avô, totalmente analfabeto, ditava os poemas para que ele os escrevesse na parede já que não sabia escrever e não havia papel disponível.
História das margens do mágico Velho Chico, que tanto fascínio me causa.

Monday, July 07, 2008

CQC FINALMENTE NO CONGRESSO

Após dois meses tentando gravar matérias DENTRO do Congresso Nacional, a equipe do programa CQC (Custe o que Custar) da TV Bandeirantes foi FINALMENTE autorizada a entrar e entrevistar os parlamentares.
A proibição foi decretada pela Secretaria de Comunicação (SECOM) de nosso democrático Presidente alegando ser o CQC um programa humorístico e não jornalístico. Apesar de apresentado por jornalistas devidamenete credenciados. É a mais pura democracia do Governo Lula mais uma vez sendo colocada em prática e aviltando o direito ao exercício da livre imprensa neste país.
Pouco tenho assistido televisão atuamente mas tenho acompanhado o programa CQC (que vai ao ar ás segundas-feiras a partir das 22 horas pela TV Bandeirantes). Comandado pelo irreverente Marcelo Tass (um dos comunicadores multimídia mais criativos e versáteis do Brasil) , o programa aborda de maneira inusitada e inteligentíssima os problemas do Brasil, aliando crítica e humor e um bom tempero jornalístico. O ritmo dinâmico do programa apresentado AO VIVO é dado pelo próprio Marcelo Tass que não deixa a "peteca cair" e brinca com seus dois colegas apresentadores que soltam comentários divertidos e espontâneos.
Um bom jeito de começar a semana ao invés de assitir aos enfadonhos programas de futebol comentando a rodada do final de semana

Friday, July 04, 2008

SHALOM INGRID BETANCOURT

Ao contrário do que comumente se pensa, o significado mais profundo da palavra 'shalom' não é paz. Em hebraico a palavra 'shalom' vem da palavra 'shalem' - que significa inteiro, completo. A relação com a paz vem da idéia de que para se alcançar a paz dentro do povo de Israel era preciso que eles estivessem completos. Isto é, somente não deixando ninguém de lado e tendo atingido a força maior através da união das forças de todos, é que eles iriam obter a bênção completa.
Esta interpretação remete-me ao caso da heróica Ingrid Betancourt. Em sua primeira entrevista coletiva a ex-candidata à Presidência da Colômbia declarou ter pensando em se matar quase todo os dias nos últimos anos. Mas que não o fez por imaginar o que seus filhos pensariam dela. "A tentação do suicídio era permanente em todos os reféns e alguns chegavam a "ensaiar" este suicídio. No meu caso, a tentação era diária, no sentido de pensar no suicídio e dizer: Será uma opção? Serei capaz? O que meus filhos vão pensar? Mas sempre desistia porque tinha uma base muito forte, que era o programa de rádio diário pelo qual me punham em contato com minha mãe, que dizia o que estava acontecendo com minha família, meus filhos".
Não tivesse Ingrid a "base muito forte" (que não foi o programa diário de rádio, mas sim sua própria força interior), não estivesse ela (ainda que pensando em suicídio), inteira e completa, não teria recebido a bênção completa da libertação.
SHALOM INGRID BETANCOURT!

Thursday, July 03, 2008

COMEÇAR DE NOVO

Cada momento de minha vida é marcado por uma trilha sonora. Elejo músicas que traduzem o que sinto e sigo minha caminhada embalado (ou embolado). Seja pela profunda alegria de poder sonhar acordado, seja pela tremenda saudade do inesquecível momento que não volta, seja pela coragem que à vezes falta, seja pelo sofrimento que a solidão traz. Em todos estes momentos várias músicas têm me acompanhado e, toda vez que ouço uma que já fez parte da trilha sonora de minha vida, lembro-me do exato momento em que a ouvi e de tudo que àquela época se passava em minha vida.
Neste inesquecível e sabático mês de junho uma única canção eu ouvia ao acordar e em vários monentos do dia quando perdia a sensação de estar pisando no chão: a linda Começar de Novo criada por Ivan Lins e Vitor Martins. Ela traduzia tudo o que sentia e me abastecia com a força que eu precisava encontar em mim mesmo para não enfraquecer. Foram dias difícílimos, onde cheguei quase ao meu limite de dor e solidão, mas consegui vencê-los com muita coragem acreditando em um novo recomeço. Acreditando em mim mesmo e em meu maior ativo: a minha ética, meus valores morais e minha capacidade de trabalho. Nutrindo uma enorme esperança (documentada aqui neste BLOG) por uma mudança em minha vida.
Pois ela chegou e há três dias vivo no meio daqueles que deveriam ser meus colegas de trabalho caso eu tivesse acertado ao escolher o jornalismo como profissão. Estou no meio de uma redação e junto com outros três colegas que compõem a equipe comercial da revista Imprensa sou uma "avis rara". Porém sinto-me à vontade naquele ambiente onde se discute CONTEÙDO (notícias, projetos editoriais, prêmios de jornalismo e literários, livros e exposições). Estou no meio de pessoas que pensam e valorizam a inteligência como maior ativo. Não pensam em produtos e preços: pensam em idéias. Vivem de idéias e de fatos. E de contar os fatos, analisar os fatos, discutir os fatos e se posicionar sobre os fatos. Não estou no meio de covardes ou "vaselinas" que não se responsabilizam por suas opiniões. Ao contrário, estou entre quem emite e publica suas opniões. Como eu sempre sonhei em fazer e este BLOG hoje me possibilita realizar parte deste sonho.
Foi um mês doído, sacrificado, mas hoje tenho uma antes desconhecida sensação de felicidade porque fui capaz de me colocar onde me sinto confortável e próximo daquilo que mais amo: A PALAVRA. E a sua mágica utilização para contar histórias, notícias, romances, contos, crônicas, fazer rimas de poemas e trovas de cordel. Meu amor maior está agora bem ao meu lado e com ele pretendo seguir em minha vida. Cantando e contando histórias de sonhos que se tornam possíveis pela coragem de quem não perde a mania de ter fé na vida.
Segue abaixo a letra da canção composta em 1978

COMEÇAR DE NOVO

Começar de novo
E contar comigo
Vai valer a pena
Ter amanhecido
Ter me rebelado
Ter me debatido
Ter me machucado
Ter sobrevivido
Ter virado a mesa
Ter me conhecido
Ter virado o barco
Ter me socorrido

Começar de novo
E contar comigo
Vai valer a pena
Ter amanhecido
Sem as tuas garras
Sempre tão seguras
Sem o teu fantasma
Sem tua moldura
Sem tuas escoras
Sem o teu domínio
Sem tuas esporas
Sem o teu fascínio

Friday, June 27, 2008

Cozinha de fazenda


Pele preta na cozinha amarela
põe comida na panela.
Chaleira no fogão à lenha
Bota água pra esquentar
Pé da serra
terra onde
cresce o café


Janela

de casa grande

sabor de história
no chão da cozinha

O Direito de Greve e o de Ir e Vir

Rumando a uma bem sucedida reunião dei de cara com o protesto dos professores que parou a Avenida Paulista e as imediações no final da tarde de hoje. Tinha horário marcado e o melhor caminho para me levar ao destino (região central da cidade) era a Avenida da Consolação.
Iniciei meu trajeto pela Avenida Rebouças, já complicada e apresentando morosidade. Depois de muito trocar de primeira para segunda marcha, quando pensei em entrar na Avenida da Consolação, um batalhão de "marronzinhos da CET" e Policiias Militares desviava o fluxo do tráfego para a Alameda Santos. Naquele instante (praticamente cinco da tarde - o horário da minha reunião), um grupo de professores vindo da Avenida Paulista descia a Consolção rumo ao centro. Caos total, buzinas para todos os lados e muita gente reclamando com os "marronzinhos". Sem qualquer alternativa tive que da Alameda Santos entrar na Rua Augusta e enfrentar (pasmem!), mais de uma hora de congestionamento para descer a Augusta até a Alameda Caio Prado. O Trânsito da Rua da Consolação havia sido desviado para a Rua Augusta e paralelas. Como uma rua como a Augusta suportaria o volume de tráfego da Consolação, incluse com ônibus? Resultado: ninguém saía do lugar. Fiquei travado no meio daquela bagunça (com os "marronzinhos" prestando o serviço de não ajudar em nada). até atingir a esquina da Alameda Caio Prado. Depois da Caio Prado, imediações do Mackenzie, Largo do Arouche e o destino final. Tempo de percurso: inacreditáveis uma hora e quarenta e cinco minutos.
O Direito de Greve é Constitucional e pode ser exercido em busca das reinvindicações de uma categoria. No caso desta paralização dos professores sou favorável à causa e ao exercício da greve. Desde que ele não tire o meu direito de ir e vir. Uma manifestação na avenida Paulista às 16 horas de uma sexta-feira só pode ser premeditadamente planejada para criar o caos neste já incontrolável trânsito paulistano. Por quê transtornar a vida de tantas pessoas ao mesmo tempo? Não é a greve suficiente para revindicar o direito de uma categoria?
Será mesmo preciso tirar o direito de outros para revindicar um direito próprio?

Wednesday, June 25, 2008

A BANDA

Assisti a um excelente filme que acaba de estrear em São Paulo: "A Banda". Dirigida por Eran Kolirin a produção franco / israelense conta a história de uma banda egípcia que chega a Israel para tocar na cerimônia de inauguração de um centro de arte árabe. Do aeroporto, os integrantes tomam um ônibus em direção à cidade onde deveriam fazer o concerto. Por engano, porém, param em outra cidade, onde um próximo ônibus só passa no dia seguinte.
Narrado de forma sensível e com movimentos lentos de câmera, o filme mostra as horas deste inusitado dia na vida de uma pequena cidade que recebe os músicos árabes. Incialmente os moradores mostram desconforto e até certa indiferença com a presença dos visitantes que, por sua vez, sem alternatina até o dia seguinte, tentam ser aceitos por aquela comunidade. Ao longo do filme os personagens vão construindo relações em que suas histórias são reveladas e segredos desvendados. Tudo em clima de paz, mesmo entre árabes e judeus.
Um filme que se passa no deserto, no dia em que vivi um oásis de felicidade.

Saudades Dna. Ruth

A partida de nossa querida ex-primeira-dama muito me entristeceu no dia de hoje. Mulher discreta, idealista, na vanguarda de seu tempo e que tão bem representou nosso país. Aprendi a admirá-la tendo acompanhado seu trabalho que tanto benefício trouxe à nossa sociedade.
Pessoas como ela deixam lacunas difíceis de serem preenchidas. Saudades, Dona Ruth.

Monday, June 23, 2008

Pensamento do sempre

"De tudo ficaram três coisas:

A certeza de que estamos sempre começando,

A certeza de que é preciso continuar,

A certeza de que seremos intenrompidos antes de terminar....

Portanto devemos:

Fazer da interrupção um caminho novo,

Da queda, um passo de dança

Do medo, uma escada

Do sonho, uma ponte

Da procura, um encontro..."

Fernando Pessoa

Pensamento feito para mim, uma alma que nunca se cansa de sonhar e não desiste de batalhar por seus sonhos.

Thursday, June 19, 2008

RAÍZES DE FAMÍLIA

Fazenda São Lourenço, 14 de junho de 2008 (01:000 hs)
Viagem cansativa. Dez horas desde minha casa.
Chegada linda, lua quarto-crescente (quase cheia), bois e cavalos vagando no meio do caminho, mato verde iluminado pelo farol do carro. Lembranças com saudade de meu avô Rubem. Aqui comemorei meu 5º aniversário em um inesquecível carnaval. Passei 33 anos com vontade de voltar. Desejo presente em cada lembrança que agora reencontro.
Fogão à lenha, portas de madeira, chaves de ferro, palmeiras imperiais. Silêncio da madrugada povoada de histórias. Ouvi os passos de meus antepassados, caminhei por suas trilhas, revi seu mundo. Aqui me encontro novamente.
Chão de madeira, pé-direito alto, janelas coloniais grandes, engenho velho, alambique abandonado, retratos e recordações na parede. Terra preciosa da minha família. Passado distante que venho resgatar. Montanha de pedra que vou atravessar. Do outro lado minha história para contar. São Lourenço da minha infância que agora vou revisitar.

Friday, June 06, 2008

CINEMA NOVO

Saí correndo em direção à Avenida Paulista. Um compromisso inadiável: cinema das cinco na Reserva Cultural. Todos corriam apressados para voltar para casa ou ir a algum lugar. E eu, indo ao cinema. Tinha vinte minutos para chegar lá e, sem ver quem se aproximava, ia passando um e outro, costurando todos e, como um piloto de competição, deixava os retardatários para trás.
Ninguém entendia nada, nem o próprio marronzinho de quem desta vez me vinguei, já que ele não pode sacar seu talão de multas. Lembrei-me de minha primeira e única São Silvestre quando corri pela Avenida Paulista após a longa subida da Brigadeiro. Não deixava para trás o vento que me acompanhava nesta corrida pela Avenida símbolo da cidade que nunca para. Uma corrida pura, livre, descompromissada e descontraída. Em direção aos meus sonhos e ao meu ser. Rumo ao topo da liberdade.
Não via nada. Só ouvia o vento soprando palavras em minhas orelhas e, confiante, corria, corria e corria. Desenfreadamante, com muita energia, deixando para trás coisas inúteis que devem ser esquecidas e enterradas. Olhando para frente, mirando no amanhã, pensava em começar de novo. Pensava em fazer do meu jeito, da minha forma, sem manual de instruções ou regras pré-estabelecidas. Pensava apenas em criar a minha estrada com a vida em minhas mãos contando apenas comigo e sabendo que disso seria capaz. Respirava, sugava, o ar que me faltava e oxigenava meus pulmões com a minha eterna esperança.
Cansado, mas com energia para mais tantos metros, cheguei ao cinema e assisti, pela primeira vez na minha vida, um filme às cinco horas da tarde de uma sexta-feira.

"Se o mundo faz ZIG, faça ZAG"

Esta frase do publicitário Alexandre Gama, fundador da agência de publicidade NEOGAMA diz tudo o que sinto hoje.
Alexandre Gama trabalhou como redator publicitário em diversas agências e nunca conseguiu eco para seus "surtos" criativos. Tinha sempre algo ou alguém que o impedisse de fazer o seu ZAG, como contou em uma palestra que assisi. Cansado daquilo tudo, resolveu iniciar praticamente do nada sua própria agência com o nome de NEOGAMA (por ser o novo Gama) e com o genial slogan: se o mundo faz ZIG, faça ZAG. Hoje a NeoGama é uma das maiores e mais premiadas agências do país, responsável pelo reposicionamento de imagem do Banco Bradesco e a incrível idéia de trazer o Circ Du Solleil para o Brasil (campanha absolutamente inédita no engessado mercado bancário). Além disso a NeoGama é a responsável pela liderança da Mitsubishi Pajero no segmento de SVU saindo de uma incômoda posição perante a Nissan Pathfinder que hoje amarga uma grande derrota graças às inovadoras campanhas da NeoGama.
Minha admiração ao Alexandre Gama, e o desejo profundo de fazer um grande ZAG em minha vida.

Thursday, June 05, 2008

FRASE DO DIA

"O peregrino da vida avança alegremente no caminho da luz quando se despoja de tudo que é inútil"

Georges Roux

Wednesday, June 04, 2008

BOA NOITE

Esperança minha que cresce dentro de mim.
Traze o sono
de onde brotam os sonhos que se tornam realidade.
Felicidade minha que nasce dentro de mim.
Traze o conforto
para esta incansável alma batalhadora.
Teimosia minha que nunca sai de mim.
Traze o fruto de meu esforço
Para que esta noite seja de paz.

VITÓRIA NA OMC

Apesar de toda a estapafúrdia política internacional do Itamaraty, o Brasil obteve no Tribunal da Organização Mundial de Comércio vitória definitiva contra os subsídios concedidos pelos Estados Unidos ao algodão.
Depois de quase seis anos de disputa na OMC, o Brasil conseguiu obter vitória na batalha travada no órgão máximo da Organização Mundial de Comércio. Alegando que o subsídio do Governo americano aos produtores de algodão daquele país prejudica os agricultores brasileiros, o órgão máximo da OMC julgou ilegal esta prática, o que permite ao Brasil a possibilidade de aplicar sanções monetárias contra os Estados Unidos.
Resta saber agora se o Brasil aplica as retaliações (que podem chegar a US$ 4 bilhões) ou tenta um novo acordo com o Governo Norte-americano. Tudo indica que o Itamaraty deva usar esta vitória como "carta na manga" para as negociações da próxima Rodada Doha, onde a questão da liberação do comércio será debatida. Com este ganho de causa, tende o Brasil a se fortalecer na próxima Rodada Doha, a ser realizada em julho.
Sendo esta a estratégia a ser adotada pelo Ministério das Relações Exteriores, tende a agricultura brasileira a sair fortalecida, posto que um dos grandes obstáculos enfrentados pelo produto agrícola brasileiro no exterior é o injusto subsídio protecionista aplicado pelos Estados Unidos e outros países europeus. A agricultura brasileira é uma das mais eficientes do mundo e tem excelentes índices de produtividade / hectare que muito superam os números apresentados pelos agricultores do primeiro mundo. Por quê, então, um produto de melhor qualidade a um preço mais baixo não pode entrar nos maiores mercados consumidores? Apenas por uma questão protecionista onde o subsídio coloca o preço dos produtos agrícolas (como é o caso do algodão) a preços mais baixos do que na realidade o seriam.
O subsídio tem sido a única arma protecionista que faz com que vários produtos agrícolas tanto na Europa como nos Estados Unidos tenham localmente preços mais baixos do que se fossem importados. Caso contrário, no mercado americano, por exemplo, o algodão brasileiro seria mais barato que o algodão produzido naquele pais. O que aumentaria consideravelmente nossas exportações de algodão além de fomentar a produção em nosso país.
Que esta seja a primeira de várias vitórias contra o injusto subsídio agrícola praticado contra o Brasil.

FRASE DO DIA

Um grande amigo me disse hoje:

"Eu queria ter comido metade das mulheres que minha mulher acha que eu comi, ter metade do dinheiro e do sucesso que meus amigos me atribuem e ter toda a beleza que minha mãe acha que eu tenho".

M.L.

Thursday, May 29, 2008

O VENTO

“Olá, Guardador de rebanhos,
Aí à beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?”

“Que é vento, e que passa,
E que já passou antes,
E que passará depois.
E a ti o que te diz?”

“Muita cousa mais do que isso.
Fala-me de muitas outras cousas.
De memórias e de saudades
E de cousas que nunca foram”.

Fernando Pessoa em
O Guardador de Rebanhos

Desde pequeno o vento faz parte da minha vida. Meu avô contava histórias sobre o vento. Minha avó cantava a música do vento que balançava as palmas do coqueiro, encrespava as ondas do mar e trazia notícias de lá.

Tudo isso fez nascer em mim uma admiração pelo vento e uma relação muito especial com seu mistério. Este trecho de O Guardador de Rebanhos traduz minha fascinação pelo vento e toda poesia contida em seu sopro.

O vento quando sopra, dobra os girassóis, faz barulho no meu ouvido, arrepia minha pele. Quando cavalgo livremente pelos canaviais, seu assobio me aproxima da liberdade mais pura. Quando sinto saudade, o vento me traz notícias de lá.

Atualmente o vento tem me falado das "cousas que nunca foram" , soprado aos meus ouvidos "muita cousa mais do que isso" e vem me acompanhado refrigerando minha alma. Tem feito parte de minha existência como a memória de meu avô, que nunca me deixa, está sempre comigo e fica mais forte nas horas mais importantes e críticas.

O vento une passado e presente e me deixa mais próximo das respostas que procuro.

Saudades de meu avô toda vez que me lembro que o vento "não sabe de onde vem e nem para onde vai".







Wednesday, May 28, 2008

"No More Mr. Nice Guy"

Cansei de ser o Mr. Nice Guy. Não vou mais ser o bonzinho que "só toma na cabeça".

Seguirei meu caminho fiel aos meus princípios agora porém sem superproteger quem não quer ser superprotegido. Não mais calando-me diante de barbaridades para não ter problemas. Não mais anulando-me para fazer os outros felizes e, com certeza, não mais acabando um dia com o sentimento de frustração.

CHEGA.

Quero paz, sim, mas não quero perder-me de mim mesmo por causa dos outros. Respeitando a todos e tentando conviver com as diferenças, vou atrás de minha liberdade e individualidade, binômio mágico, encantador e tão difícil de ser alcançado.

Mas quem não anda um kilômetro não consegue caminhar mil kilômetros.

Chego lá, com certeza.

SE

" Se é capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se é capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;"

Este é o primeiro verso do lindo poema "IF" (Se) de Rudyard Kipling que tem me acompanhado há mais de um mês encorajando-me a seguir caminhando e lutando, porém sem brigar.

Palavras trazidas pelo vento na hora em que eu mais precisava.

"DOMINUS SUI, VICTOR MUNDI"

Do Latim:

"Eu tenho domínio de mim mesmo.

Eu venço o mundo"

SEM COMENTÁRIOS

Mangabeira Unger, nosso Ministro de Assuntos Estratégicos, escolhido para coordenar o PAS (Plano Amazônia Sustentável) declarou abertamente ser "um ignorante em relação à Região Amazônica".

Depois o Lula quer que a opinião pública mundial acredite que a Amazônia é nossa. Como eles vão dar confiança à gestão de alguém que se autodefine como ignorante JUSTAMENTE a respeito do problema que foi convocado para resolver?

SÃO PAULO DA GAROA

Quando cheguei do interior, ainda jovem, vindo de Assis para fazer cursinho e faculdade em São Paulo, ainda não tinha total dimensão do que era viver nesta cidade. Minha infância inteira tinha sonhado com a chance de morar aqui na cidade grande. As férias de julho e de verão, a gente passava aqui na casa de meus avós maternos. Até hoje não me sai da memória a triste imagem da chegada a Assis quando eu acordava da viagem e via as luzes da avenida principal iluminando o trem. Era retorno ao chão, vindo do céu, que era o sonho. Aquela vida de cidade pequena me entristecia, me deixava cabisbaixo, me dava vontade de sair. Me lembro de quantas e quantas vezes eu contava nos dedos os dias para se chegar o dia da viagem de trem. Naquela época, a gente ainda viajava de trem, nos trilhos da velha e saudosa Sorocabana, que nos trazia até a inesquecível Estação Júlio Prestes. Naquelas plataformas o gostoso era sempre chegar, nunca partir. Nas noites de vinda, nem dormir direito eu conseguia, olhava em meu reloginho de pulso de hora em hora. Tinha uma luzinha fraca que ficava bem em cima da cabeça e que, toda vez que eu acendia, minha mãe, zelosa, na cama de baixo, perguntava se eu queria alguma coisa. Era uma cabine do carro leito, como eles o chamavam, na bilheteria, e tinha um beliche. Em baixo dormia minha mãe, em cima , eu e minha irmã mais nova. Às vezes, dormia sozinho, era a glória, a independência. Mas na maioria das vezes tinha que dividir o espaço com minha irmazinha. A viagem era gostosa, tranqüila, o chacoalhar dos trem embalava o sono que volta e meia era interrompido pela ansiedade de chegar. O barulho doas rodas sobre os trilhos, Ah, esse, só quem já viveu é que sabe! Dava uma sensação de segurança e a certeza de que a gente ia chegar. E ainda na periferia, algumas estações antes da Júlio Prestes, lá ia eu no meu maior gesto de independência para a varanda do vagão, ver sozinho a grande cidade chegar. Era um encontro mágico, um contorno de céu que eu não conhecia em Assis, e que toda vez que eu via me dava vontade de abraçar. O vento que soprava no meu rosto me preparava para o encontro que eu tanto tinha esperado. E lá de longe, assim que o trem embicava na estação, lá estavam meus avós acenando com o gosto de felicidade na palma das mãos. Era como se nada existisse, apenas aquele abraço, aquele beijo ,pudessem acontecer. Nos braços de meu avó , o encontro tão esperado. A cidade, o mundo, a vida , eram pequenos demais para mim naquele momento. A segurança era tão grande que a cidade ficava pequena. E eu a dominava por inteiro. No caminho para a casa dos meus avós, eu via a cidade passar na janela do carro de meu avô e sentia um desejo de pegar em minhas mãos aquela cidade que eu tanto amava.

Muita coisa mudou em São Paulo desde aquele tempo, mas minha vontade de domar esta cidade continua a mesma., Agora não é só a chegada pelos trilhos do trem e o caminho para a casa de meus avós que eu conheço. Trabalhando como vendedor, já rodei pelos quatro cantos desta grande incógnita, que eu tanto amo. Quando era criança, São Paulo era só poesia, televisão, estórias de meu avô. Eu não sabia e não conhecia este lado frio, cruel e impessoal da grande cidade. Meu avô me levava ao centro, me mostrava as ruas por que andara na infância, simulava o barulho do bonde e o trocador pedindo os bilhetes. São Paulo para mim era a São Paulo do meu avô, uma cidade pequena e romântica com seus lampiões de gás.

Hoje, depois de mais da metade de minha vida, já passada nesta terra que eu ainda amo, me ressinto ao me pegar várias vezes querendo sair daqui. Ao contrário de quando era criança, hoje conto no calendário do computador, os dias para o feriado que vai me levar até Assis. Me sinto oprimido, massacrado, pressionado por esta São Paulo que não mais reconheço. As luzes da mesma Avenida Rui Barbosa em Assis, são agora motivo de alívio e de segurança, não mais de angústia.

Felizmente, enquanto estiver aqui em São Paulo, morando no bairro da Aclimação, eu tenho um refúgio: o Parque da Aclimação. O lugar onde me encontro com minhas raízes, o lugar onde volto a ser menino e a vida passa a ter novamente sentido. Final de semana que eu fico em São Paulo e não vou ao parque da Aclimação, não é final de semana. Hoje eu preciso deste espaço, deste jardim que virou parque numa cidade onde o verde foi devastado.

No Parque da Aclimação, os velhinhos ainda jogam dominó e se reúnem para falar dos seus tempos de futebol e zona (do meretrício). Ali, as pessoas se encontram e se conhecem, se cumprimentam e se respeitam, não são impessoais e frias. No Parque da Aclimação, o futebol ainda é pelada e é jogado como mesmo amor que o velho Garrincha tinha por ele. Sem interesse, com ginga, com malícia e malandragem. O futebol é futebol, e a torcida senta junto na arquibancada e xinga o juiz do mesmo jeito. Ali não tem briga e, se tiver, faz parte, logo, logo, chega a turma do deixa disso. A mulherada também fala palavrão e se senta ao lado do marido da outra para xingar o próprio marido que está no campo. A grama não é mais grama, é terra, mas é ali que os bairros de São Paulo ainda se enfrentam com suas agremiações amadoras. È ali que o esporte bretão encontra sua identidade mulata. No Parque da Aclimação, tem o recanto do Saci Pererê, um parquinho de crianças onde todo mundo se junta para ver as crianças rolarem na areia e se divertirem inocentemente. No Parque da Aclimação, os japoneses ainda falam japonês, os coreanos ainda falam coreano e os italianos ainda falam italiano. No Parque da Aclimação, os territórios ainda existem e são respeitados, as pessoas ainda têm origem e as famílias ainda se conhecem. Na concha acústica quem se apresenta é do bairro e pode fazer ali sua propaganda gratuita para aqueles que são da comunidade. Aliás, na concha acústica, as crianças brincam e se divertem ensaiando passos artísticos para o futuro. No parque da Aclimação, não tem diferença. O velhinho da cadeira de rodas está na mesma pista da criança que dá bom dia e passa correndo. Quem corre com tênis AIR último modelo passa no mesmo lugar daquele que corre descalço ou de havaianas. Ninguém se preocupa em mostrar algo para o outro, não tem competição de grife ou status de competição. Ali o esporte é esporte e cada um faz o que gosta do jeito que quiser. As pessoas se conhecem e se reúnem, falam mais abertamente sobre suas vidas e acabam se desmascarando. Trocam idéias e até discutem, mas sem brigar. Discordam e ao mesmo mesmo se entendem. São amigas.

No Parque da Aclimação A SÃO PAULO DA GAROA do meu avô volta pra minhas mãos.

SP, 26/07/2004

SAUDADES GUGA

Escrevi este texto em 2004 quando Guga estava em sua melhor fase.
Decidi publicá-lo em homenagem à aposentadoria de um cara do bem e que eu muito admirei.
O BRASIL DE GUGA
Guga venceu Ferrero e confesso que começo a me lembrar do Senna. Comparações são sempre difíceis e perigosas, mas às vezes bem vindas. Acho que hoje ela é bem vinda.


Há pouco mais de dez anos me lembro que vivia uma dúvida, um dilema, uma crise quase que existencial. Deveria eu amar ou odiar este país? Era um típico cara pintada, já não mais estudante universitário, mas com o espírito de um deles, que acreditava em movimentos estudantis (apesar do babaca do Lindenberg Farias nunca ter me enganado) e na famigerada mobilização social. Peguei minha bandeira, pintei minha cara, fui duas vezes às ruas, acompanhei ao vivo a votação de cassação do Collor. No alto de meu pueril idealismo, achava ser aquilo suficiente e acreditei ter ajudado a mudar meu país.



Naquela época, recordo-me vivamente e com muita saudade, a revolta contra todos aqueles políticos que haviam nos traído parecia deixar de existir nas manhãs de Domingo quando “Ayrton Senna DO BRASIL” nos enchia de orgulho ao desfilar nossa bandeira nas pistas ao redor do mundo. Era um banho de emoção, uma catarse daquele Brasil perdedor que tanto nos maltratava. Era como se ele nos representasse, um a um, de todos os cantos deste país, em cada pódio que conseguia. Era como se ele nos dissesse, a cada novo começo de semana: deixa prá lá, um dia a gente vence... E nós, tomados de emoção, começávamos a semana cheios de esperança.



Quase dez anos se passaram desde sua morte e a vitória de Guga fez-me lembrar dele (como se fosse possível esquecê-lo). Em tempos de “apagão” de tanta falta de responsabilidade, não vivo mais o mesmo dilema. Todos odiamos claramente este país que ainda vai precisar de muitas vitórias do Guga para nos ajudar a recuperar a auto-estima. Até para os mais românticos como eu fica difícil gostar de quem nos maltrata aviltantemente a cada minuto. Fica difícil acreditar em quem se diz preparado e depois “ é pego de surpresa”. Mas o tempo, soberano regente da vida, sabe o que faz. No Brasil do Senna, uma vitória a cada quinze dias era suficiente. No Brasil do Guga, uma vitória por semana ainda é pouco...

E no Brasil do Guga, a vitória já não é mais catarse; é vingança.

REFLEXÃO PARA MOMENTOS DIFÍCEIS

“Eu vi um mar bravo e revolto com ondas enormes.

Então percebi que sob a superfície havia calma e quietude. Eu ouvi as palavras:

Procure a paz que flui por toda a profunda compreensão interior e, quando a encontrar, retenha-a, não se importando com o que esteja se passando ao seu redor.”

A LIÇÃO DO BAMBÚ CHINÊS

Depois de plantada a semente deste incrível arbusto, não se vê nada por
aproximadamente 5 anos, exceto o lento desabrochar de um diminuto broto, a
partir do bulbo.


Durante 5 anos, todo o crescimento é subterrâneo, invisível a olho nu,
mas...


Uma maciça e fibrosa estrutura de raiz, que se estende vertical e
horizontalmente pela terra está sendo construída.


Então, no final do 5º ano, o bambu chinês cresce até atingir a altura de 25
metros.


Um escritor de nome Covey escreveu : Muitas coisas na vida pessoal e
profissional são iguais ao bambu chinês.


Você trabalha, investe tempo, esforço, faz tudo o que pode para nutrir seu
crescimento e, às vezes, não vê nada por semanas, meses, ou anos.
Mas, se tiver paciência para continuar trabalhando, persistindo e nutrindo,
o seu 5º ano chegará e, com ele, virão um crescimento e mudanças que você
jamais esperava...


O bambu chinês nos ensina que não devemos facilmente desistir de nossos
projetos, de nossos sonhos...


Em nosso trabalho, especialmente, que é um projeto fabuloso que envolve
mudanças... de comportamento, de pensamento, de cultura e de sensibilização.


Para ações devemos sempre lembrar do bambu chinês, para não desistirmos
facilmente diante das dificuldades que surgirão.


Tenha sempre dois hábitos: persistência e paciência, pois você merece
alcançar todos os seus sonhos!!!


É preciso muita fibra para chegar às alturas e, ao mesmo tempo, muita flexibilidade para se curvar ao chão.

Friday, May 23, 2008

MENINA

Quando criança nao podia ouvir a música "Menina" de Paulinho Nogueira. No meio dos seus lindos acordes começava a chorar e não parava mais. Até hoje me lembro de cantar chorando:

"Te carreguei no colo menina,
Cantei pra te dormir "

Algo inexplicável, que talvez possa ser atribuído à imensa vastidão cósmica que foge à nossa compreensão. Tive uma filha. Que tanto carego no colo e conto estórias para dormir. Uma filha única, especial, diferente de tudo e que tanto me ensina e leva adiante. Uma filha que ME carrega no colo, mesmo tão pequena, sem saber que assim está fazendo. Uma filha que embala meu sono e me põe para dormir. Acalenta meus sonhos e me faz forte, ensina a essência da vida e me faz pensar.

Na natureza, na frieza da vida, crueza das pessoas, na falta de verdade nos olhares. Na vegonha que não se tem mais, na ausência de valores, no fim da linha deste trem.

Filhota minha, você e só você, não me deixa perder a esperança.

Friday, May 16, 2008

BARCO DA VIDA

Entra no rio,

Corre com o barco

E deixa a correnteza te levar.


Desce o rio,

Contorna as pedras

E vence a força da água


Sente o rio,

Água na pele

O desejo que renova a vida


Vive teu rio,

Entra de cabeça

E veja onde suas águas levarão


Lá na margem,

Correndo nas bordas

O desejo de estar no rio


Friday, May 09, 2008

Armadilhas da língua pátria

Recebi hoje este interessante e-mail que resolvi publicar.

Você sabe o que é tautologia?

É o termo usado para definir um dos vícios de linguagem. Consiste na repetição de uma idéia, de maneira viciada, com palavras diferentes, mas com o mesmo sentido. O exemplo clássico é o famoso 'subir para cima' ou o 'descer para baixo'. Mas há outros, como você pode ver na lista a seguir:

- elo de ligação
- acabamento final
- certeza absoluta
- quantia exata
- nos dias 8, 9 e 10, inclusive
- juntamente com -
- em duas metades iguais
- sintomas indicativos
- há anos atrás
- vereador da cidade
- outra alternativa
- detalhes minuciosos
- a razão é porque
- anexo junto à carta
- de sua livre escolha
- superávit positivo
- todos foram unânimes
- conviver junto
- fato real
- encarar de frente
- multidão de pessoas
- amanhecer o dia
- criação nova
- retornar de novo
- empréstimo temporário
- surpresa inesperada
- escolha opcional
- planejar antecipadamente
- abertura inaugural
- continua a permanecer
- a última versão definitiva
- possivelmente poderá ocorrer
- comparecer em pessoa
- gritar bem alto
- demasiadamente excessivo
- a seu critério pessoal
- exceder em muito .

Note que todas essas repetições são dispensáveis. Por exemplo, 'surpresa inesperada'. Existe alguma surpresa esperada? É óbvio que não. Devemos evitar o uso das repetições desnecessárias.

"YES WE CAN"

O slogan criado para a campanha de Barack Obama ("Yes we can") teve um forte aliado durante os últimos meses: a imprensa americana. Nesta semana a capa da Revista TIME estampa a foto do candidato democrata com a manchete "And the winner is..." com um asterisco. E o asterisco é justificado pela frase: desta vez temos certeza.
Pelos cálculos matemáticos apresentados pela imprensa americana ao mundo a vantagem de Obama sobre Hillary Clinton parace irreversível após a vitória do candidato negro nas primárias da Carolina do Norte no último dia 06 de maio. Mesmo ainda faltando algumas convenções primárias, Barack Obama pretende no dia 20 de maio oficializar sua vitória sobre a adversária e conclamar o partido democrata a unir-se em torno de sua candidatura. Mas ainda não admite abertamente sua vitória. Perguntado em entrevista a uma grande rede de televisão sobre a capa da revista TIME, o candidato disse que ainda há muito trabalho pela frente.
O cenário atual apenas confirma a trajetória da disputa entre os dois pré-candidatos Democratas nos últimos meses. Uma ligeira vantagem de Obama sobre Hillary em Estados com maior presença de minorias raciais e a contrapartida do desempenho da ex-primeira dama em Estados mais conservadores como a Pensylvania. Mantendo-se as devidas estratégias de marketing eleitoral buscando o posicionamento de cada um dos candidatos, o discurso de ambos não apresentou grandes diferenças ideológicas ou programáticas , mantendo apenas a tônica de oposição à continuidade do Governo Bush (qualquer que fosse o vencedor). À exceção da questão do Iraque, quando Hillary mostrou uma postura mais agressiva do que Obama (buscando uma parcela do eleitorado mais consevador - inclusive o republicano), não houve discussões programáticas. Além da questao do Iraque estratégia do comitê de Hillary foi tentar criar a imagem de um Barack Obama mais radical (associando-o a seu ex-pastor e conecções com terroristas). As duas estratégias, aparentemente inteligentes, não se mostraram eficazes principalmente por uma razão: a proteção da imprensa americana ao pré-candidato negro.
O que se comprova mais uma vez com a história desta corrida ao posto de candidato do Partido Democrata para concorrer às eleições presidenciais americanas é a força da mídia. Tivesse a imprensa não "blindado" Barack Obama e a história talvez tivesse sido diferente. Tivesse a imprensa "eleito" Hillary Clinton como pré-candidata ideal e, quem sabe, no dia 20 de maio quem estivesse anunciando prematuramente sua vitória seria a ex-primeira dama.
Durante toda a pré-campanha a mídia americana não apenas protegeu Obama como o enalteceu e o posiconou como a melhor opção. Talvez até como a "salvação" para a América. Mais do que pelos méritos e qualidades do pré-candidato, a "vitória" de Barack Obama sobre Hillary Clinton deve ser atribuída a uma nada velada e pouco parcial cobertura da imprensa americana à esta disputa.

Friday, May 02, 2008

REFAZENDA

Chove na fazenda.
Tempo de esperar a água entrar no solo e fazer a planta crescer.
Terra molhada é terra fértil. Que, ao seu tempo, traz a colheita.

Vida de agricultor não é fácil. Tem que plantar para colher, adubar e tratar, esperar e esperar. Torcer para a chuva vir na hora certa, as tempestades passarem longe da lavoura, as pestes e os maus olhados também ficarem para longe.

Cresci em fazenda. Aprendendo a pensar na terra e nos frutos desta terra. Na magia das águas que caem sobre os grãos plantados e na colheita. Pensamento do Salmo 126: Aquele que semeia em lágrimas, colherá sorrindo.

Aniversário de minha mãe. Saudade do tempo que não sei onde está e nem me deixa sentir saudade. Só o agora. A chuva de hoje. O céu cinzento e vontade de parar. Olhar com calma as gotas de água caindo e as poças se formando no gramado. Eu dentro de mim mesmo. Poça dágua dentro de minha chuva. O vento que balança as árvores e a lareira que vai me aquecer à noite. Eu e minha sombra na luz do fogo. Lado ao lado. Plantando e colhendo. Refazendo.

E por falar em fazenda, colheita, e refazer, resolvi colocar a letra de uma lindíssima canção do Gilberto Gil que fala de tudo isso.

REFAZENDA

Abacateiro acataremos teu ato
Nós também somos do mato como o pato e o leão
Aguardaremos brincaremos no regato
Até que nos tragam frutos teu amor, teu coração

Abacateiro teu recolhimento é justamente
O significado da palavra temporão
Enquanto o tempo não trouxer teu abacate
Amanhecerá tomate e anoitecerá mamão

Abacateiro sabes ao que estou me referindo
Porque todo tamarindo tem o seu agosto azedo
Cedo, antes que o janeiro doce manga venha ser também

Abacateiro serás meu parceiro solitário
Nesse itinerário da leveza pelo ar
Abacateiro saiba que na refazenda
Tu me ensina a fazer renda que eu te ensino a namorar

Refazendo tudo
Refazenda
Refazenda toda
Guariroba

Monday, April 07, 2008

Friday, April 04, 2008

Quem não deve não teme

Sempre ouvi este ditado. Que, agora na "democracia" de LULA, a cada dia se prova mais verdadeiro. Alegando suposta possibilidade de perseguição política o Presidente vetou a possibilidade de o TCU fiscalizar as contas dos Sindicatos.
Em mais uma de suas medidas que clamam pela falta de transparência e respeito ao cidadão, este Governo prova não ter mais limites para o desespeito ao dinheiro público. Ora, se a função precípua (definida Constitucionalmente) do Tibunal de Contas da União é ficalizar o destino do dinheiro público, como uma medida destas proíbe o acesso a esta fiscalização? Há quem interprete dizendo que o dinheiro dos sindicatos não é público, é privado, posto que é baseado na contribuição dos sindicalistas. O que pode ser considerada uma interpretação correta.
O que eu gostaria, porém, de discutir não é se a verba dos sindicatos é pública ou privada, mas sim a postura corporativista e enclausurada, defensiva e covarde deste Governo. O próprio Presidente admitiu que, por ser ex-sindicalista perseguido, temia a perseguição a seus colegas. Quem não deve não teme. Quem não tem o que esconder não deve ter medo. Por quê então proteger os Sindicatos escondendo suas contas?
O fato de um ex-sindicalista proteger seu sistema é um grave "mea-culpa" que deve, no mínimo, levantarar a discussão sobre quem, se não o TCU, pode fiscalizar as contas dos Sindicatos. Não se pode aceitar uma decisão destas sem uma grande e ampla discusssão sobre este tema.

Os Pais do PAC

Mais uma genial do José Simão nesta manhã na Band News.

Se os pais do PAC são o Lula e a Dilma, imagine se o filhote puxa a aparência da mãe e a inteligência do pai?

Rapidinha

E num motel em Campo Gande:

PROMOÇÃO ESPECIAL: RAPIDINHA A R$ 10,00.

30 Minutos (sem vídeo).

Ouvi esta manhã na coluna do José Simão na Band News

Thursday, April 03, 2008

O meio e o sempre

Deixo para trás minha estrada sem me arrepender.
Guardo o rastro, as encruzilhadas onde me encontrei e desencontrei, os mapas riscados, as curvas onde derrapei, as placas não respeitadas. Faço minha história a cada passo juntando meus pedaços, minhas várias metades, meus fragmentos de reconstrução a cada esperança que se renova.

Renasço toda vez que minha loucura não permite que eu finalmente me acomode e me dê por satisfeito. Quero sempre rodar, correr e nunca parar em alguma estação chamada ponto final.

Minha vida é um caminho sem fim nem começo, só o meio e o sempre. O sempre do amor.

Friday, March 28, 2008

Chega de Saudade

Segure-se na cadeira para não sair dançando. Chega de Saudade é um convite para se bailar no meio do cinema. Com trilha sonora que mostra toda a riqueza dos gêneros da música brasileira e interpretações primorosas de Elza Soares é difícil não ter vontade de se levantar da cadeira e sair dançando. Desde forró até clássicos como Carinhoso, fundo musical para uma cena que, sozinha, já valeria o preço do ingresso.

Ambientado em um Clube de Dança de São Paulo, Chega de Saudade, segundo filme da diretora paulistana Lais Bodansky, é uma grande viagem à rotineira vida de pessoas normais e simples. Com extrema sensibilidade, a história de vida de vários personagens é contada tendo um único cenário ao fundo, o clube de dança. Ao longo do filme, este único ambiente parece transformar-se em vários lugares que ganham contornos e cores diferentes para ambientar um bonito jogo entre recordações do passado e o que é vivido na própria noite do baile. Um incrível jogo de câmera, com diferentes perspectivas e tomadas, faz o mesmo salão transformar-se em vários salões. Aliada a uma trilha sonora que ambienta cada situação, paralelamente as histórias vão sendo contadas ao mesmo tempo em que a pista de dança une e amarra todas as diversas realidades de seus personagens. O roteiro bem alinhavado mostra a importância desta técnica na criação de um bom filme.

O forte movimento da câmera de Laís, focando os pés de quem dança e várias vezes fazendo um passeio pelo salão, imprime ritmo à narrativa que aborda inteligentemente questões vitais na vida de qualquer ser humano. Por ser ambientado em um clube com várias cenas de dança, pode-se pensar que Chega de Saudade é um filme "descompromissado". Vencedor do Festival de Cinema de Brasília de 2007, o filme da diretora paulistana toca em questões sensíveis e delicadas com as quais nos defrontamos intensamente ao longo da vida. A fragilidade das relações humanas, o jogo da sedução, o ciúme, o adultério, o esmorecimento dos casamentos, a velhice, o tempo que não se pode perder. Em uma linda cena, Tonia Carreiro, em grande interpretação, diz: “há coisas que só se pode fazer na juventude”.

Chega de Saudade é o título perfeito para um filme que nos convida a refletir sobre a saudade que poderemos sentir ou aquela que podemos deixar de sentir dependendo das escolhas de nossas vidas. Um lindo passeio pelo tempo com a leveza dos pés de quem dança e a riqueza de nossa música popular brasileira.

Wednesday, March 26, 2008

Reflexão sobe o escândalo político em Nova York

As recentes declarações do novo Governador do Estado de Nova York, David Paterson, admitindo ter tido relações extraconjugais e experimentado cocaína e maconha na década de 70, impressionam pelo fato de a opinião pública americana tratar com patente diferença o atual Governador e o ex-Governador Eliot Spitzer. O fato de ter admitido publicamente, e ao lado de sua esposa, as relações fora do casamento e o fato de ter, antes que alguém o denunciasse, anunciado ter experimentado drogas, transformaram-no em bom moço apto a exercer uma função pública. Ao contrário de seu antecessor.

Como em um passe de mágica seu passado “questionável” foi apagado pelo público “mea culpa”. Exatamente por ter admitido em público seus “erros” o perdão foi concedido pela opinião pública que o acolheu vendo neste ato uma prova de caráter. Ao passo que o ex-Governador Spitzer continuou a ter o tratamento de delinqüente e marginal, por ter cometido exatamente o mesmo “erro condenável”. Porém sem tê-lo admitido publicamente.

O que os diferencia? Sem entrar no mérito moral, ambos cometeram o adultério e ambos têm a mesma “culpa no cartório” perante a opinião pública. Por quê um teve aval para exercer o poder e o outro não pôde cumprir seu mandato até o fim? Se o adultério é condenável e impede o exercício do poder, então que ambos não tenham permissão para exercê-lo. Se o adultério é critério que habilita ou descredencia um político a exercer sua função pública, então por quê esta diferença? Se o adultério é um padrão moral que influencia na competência para o desempenho de uma função pública no Estado de Nova York, então qual a justiça do julgamento entre um adúltero confesso e outro não?

Se um político adúltero não pode governar, então que esta seja a regra e que seja aplicada indistintamente a qualquer um que tenha praticado o adultério. Parece-me o cúmulo do falso puritanismo aceitar as desculpas públicas de um e condenar o outro que foi denunciado. Onde está a diferença? Se o adultério é pecado, ambos são igualmente pecadores. Quem tem este poder de absolver ou condenar um político adúltero?

A despeito do fato de relações extraconjugais em nada influenciarem o correto exercício de um mandato político, qual a lógica de, imediatamente após um escândalo sexual que leva um Governador à sua renúncia, aceitar um novo governante que também tenha cometido o mesmo “erro”? Somente o falso puritanismo pode explicar tal situação uma vez que, fosse respeitado critério de a habilitação para um cargo público estar condicionada à fidelidade conjugal, certamente o novo Governador do Estado de Nova York (e tantos outros ex-presidentes), estariam sumariamente excluídos do cenário político americano.




Wednesday, March 19, 2008

TRAÇADOS




Em contornos fortes e definidos

Com as cores do meu desejo

Vou pincelando as linhas do meu estilo.


Em contornos fortes e definidos

Na folha de papel em branco

Vou semeando minha felicidade.

Revisitando situações

Revendo meus personagens

Recriando meu ser.



Em contornos fortes e definidos

Vou pintando minha vida.

Refazendo minha paisagem

Fotografando minha alma

Congelando meus receios.



Em contornos fortes e definidos

Vou marcando minha estrada.

Olhando o ponto de partida

Que é sempre o da chegada.

Tuesday, March 18, 2008

Não Estou Lá

Assisti na sexta-feira a pré-estréia de Não Estou Lá, as muitas vidas de Bob Dylan. Definitivamente não é um filme para o grande público, tanto que a crítica na VEJA não é favorável. Quem for ao cinema esperando uma biografia de Bob Dylan vai se decepcionar.

As várias vidas de Bob Dylan são contadas paralelamente sem conexão de tempo ou linearidade. Pura desconstrução de um personagem que reinventou um gênero musical e criou algo nunca antes pensado. Por sua grandeza ao misturar o folk com o rock, buscando a essência de um novo gênero musical e pouco se importando com o rótulo de ícone de uma geração de contestação, Bob Dylan não mereceria uma biografia convencional. Merece sim, uma obra prima do cinema como este filme.

Não Estou Lá é arte. É poesia, é cinema puro. A exploração de todos os recursos de que o cinema dispõe para contar uma história. Desde o primoroso roteiro com cortes bruscos que ajudam a não costurar o recorte de imagens e histórias até o proposital movimento lento da câmera compondo as cenas onde o principal é a música de Dylan. Não Estou Lá, é fotografia, jogo de luz, contraste entre o real e o imaginário. Uma viagem ao mundo real (com depoimentos verdadeiros) entrecortados com o uso dos diversos personagens sem qualquer nexo que os conecte. A única síntese é a própria música de Bob Dylan que, de forma convincente, conta a história de seu próprio autor.

Para os fãs de Dylan, indispensável. Para os fãs de cinema, roteiro para muita discussão. Não Estou Lá é um filme sem meio termo. Dificilmente alguém permanecerá indiferente

Wednesday, March 12, 2008

A Cidade de todos os brasileiros

Há praticamente três anos não ia ao Rio de Janeiro. Na semana passada, reencontrei esta terra mágica que tanta falta me faz. Não à toa, meu chefe, que é carioca, sofre de banzo do Rio de Janeiro. Se fosse carioca, não sei se conseguiria morar aqui em Sampa (por mais múltipla, intensa e cosmopolita que esta cidade seja).

Ao contrário daqui, o Rio é único. Na realidade, o Rio de Janeiro é um estado de espírito. Estar no Rio de Janeiro é entrar na história deste país, entender a vinda da Corte Portuguesa para cá, sentir o sotaque herdado dos Lisboetas. Viver o Rio de Janeiro é mergulhar em nossa origem cartorária e burocrática, passeando pelos imponentes prédios neoclássicos dos Órgãos Governamentais que um dia centralizaram o controle deste país. Estar no Rio é, ainda, respirar um pouco os ares do poder. Seja ele do morro ou dos antigos palácios.

João Gilberto certa vez disse que o Rio de Janeiro é a cidade de todos os brasileiros. Ao contrário de São Paulo, cidade de todos os povos, o Rio é a cidade mais brasileira que pode existir. É o centro da cultura nacional e aceita todas as manifestações em todos os guetos e cantos. O Rio é democrático. A praia aberta abre espaço para o encontro de todos na quadra de fut-volley onde jogadores famosos jogam com desconhecidos. Na areia, globais e artistas internacionais dividem espaço com o mais comum dos mortais. E, na barraca do calçadão, é possível tomar água de côco tendo na mesa ao lado um músico bastante conhecido.

O Rio de Janeiro tem história. As ruas, bares, hotéis e praias têm sempre uma identidade conhecida e, estar nestes locais, é realmente identificar-se com eles. A única triste exceção é a Barra, um misto de Miami e Brasília sem qualquer identidade. Um lugar que cresce desordenadamente e deixa seu DNA carioca bem mais próximo do Guarujá do que da Zona Sul carioca. A Barra não é Rio. A Barra não pertence ao Rio. É um triste acidente geográfico / imobiliário em terrenos cariocas.

Nesta viagem reencontrei amigos queridos que confirmam a minha melhor definição de amizade: quando se tem um verdadeiro amigo, não importa o tempo da separação e a distância que o separou.No momento do reencontro, o tempo volta à estaca zero e tudo parece como se fosse ontem. Como se o tempo não tivesse passado. Assim foi com Mário e Anna, um reencontro natural, verdadeiro e espontâneo. Conversamos, filosofamos e pensamos sobre a vida com a mesma proximidade de outros tempos quando a cada quinze dias passava inesquecíveis finais de semana no Rio de Janeiro.

Um de meus grandes sonhos alimentados desde aquela época ficou mais forte: ter um apartamento lá para passar finais de semana, férias e feriados. Enquanto não consigo, vou sonhando, com a promessa de que jamais, novamente, passarei três anos sem visitar esta cidade que sempre foi, ainda é, e sempre será, a Cidade Maravilhosa.